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Antologia pessoal, ordenada
por ordem cronológica
— excepto o poema de abertura, servindo de ars poetica
—, sem indexação aos livros de origem.

♠
A vida é uma ferida ?
O coração lateja ?
O sangue é uma parede cega ?
E se tudo, de repente ?
♠
Ocupamos a paisagem
que, desocupada, se ocupa
de nós.
Tempo de ocupação, este.
Somos o estrangeiro
que o silêncio de paredes
brancas e esquecidas
perturbou.
Extasiado ao menor rumor
de um estio
duro e claro
— todo lâminas.
Perplexo da memória
destes dias
sufocados em tédio
e cal.
Da palavra para a pedra
arrastando-se aquáticos
— as mais sazonadas
as menos polidas.
Crestada que foi,
na raiz do tempo, toda
a subliminar tentativa
de retorno.
♠
Pouco tenho para alinhavar.
Dizer-te que estou longe
não apaga esta ausência que,
inelutavelmente,
nos distanciou.
Cercam-nos muros de silêncio
opresso.
A própria hera não ousa
na despudorada nudez branca
de paredes que interditam
a fantasia ao forasteiro
voraz.
O gesto tolhido,
o pretexto adiado
e a memória a estiolar.
♠
Foi então que te vi inteiriçado
em facas.
Os teus olhos abriam dois
buracos na manhã.
E de aí um medo antigo de
tropeçar
na primitiva e inominável insolência
do teu abandono.
♠
Agora que o sorriso envidraçado das quizumbas
nos envolve, os dias
a enrolarem-se-nos aos pés.
Somos daqueles a quem o exílio doeu
como dói uma noite de vidro
coices e violinos.
♠
Temos um tempo breve para amar
e todos os dias, à mesma hora,
é o deflagrar dos corpos à distância.
♠
E se eu te dissesse de todos os imponderáveis
plausíveis ?
Se eu te dissesse das histórias
que se não dizem,
das histórias pubescendo
em tardes franjadas de suor e tédio ?
Se eu te dissesse, enfim, dos arquétipos
da memória e dos terrores nocturnos ?
♠
A manhã toda topázio,
sensação urbana de tendões, poros
e carne.
Um grito gritado ao contrário,
diluído em chama, salgado.
A manhã era a labareda do teu corpo.
♠
Agora que as palavras secaram
e se fez noite
entre nós dois,
agora que ambos sabemos
da irreversibilidade
do tempo perdido,
resta-nos este poema de amor e solidão.
No mais é o recalcitrar dos dias,
perseguindo-nos, impiedosos,
com relógios,
pessoas,
paredes demasiado cinzentas,
todas as coisas inevitavelmente
lógicas.
Que a nossa nem sequer foi uma história
diferente.
A originalidade estava toda na pólvora
dos obuses, no circunstanciado
afivelar
dos sorrisos à nossa volta
e no arcaísmo da viela onde fazíamos amor.
♠
Falo de uma terra
intacta e pura
sem a memória dos mortos
que ainda não morreram.
Falo dos corpos (in)sepultos
dos vivos que ainda não nasceram
e despedaço-me na ossatura do sonho
no litoral da amargura.
Falo pela boca dos canhões
pela terra de ninguém
pelos filhos de uma noite
que vem da lonjura dos tempos...
♠
Doloroso compasso de espera
este de auscultar
os dias que nos ficaram
para habitar.
Somos uma fauna inóspita,
uma raiz tentacular
árida e seca
como a sede.
♠
Perseguem-me fantasmas
de outros tempos.
Árvores despidas
que o horizonte plúmbeo
ajudou a recortar
com uma nitidez
de pesadelo.
E tudo agora me diz
dos tempos em que
menino
me deleitava no estalar
de folhas em carne viva.
♠
Um cão de angústia progride
na cidadela sitiada
enquanto te demoras
no sorvo
no arquejo largo
no topo da saliva
enquanto te entreabro
as pernas altas
enquanto te humedeço
o musgo tenro
para te ferir com a boca
cheia de vidro moído.
♠
Continuamos no limiar
do osso.
Ainda ontem
cristalizávamos ao compasso
assíncrono
da respiração de quem nos ficou
pelo caminho.
Infalíveis,
fracturamos o sonho.
Fazemos de conta.
Evoluímos com feroz destreza
enquanto o medo se perfila.
♠
Inútil dizer-te
da cidade
que vou perdendo.
Cada uma destas pedras
me diz
da distância entre nós dois.
Permaneço
(todo silêncio
e portas).
Muito nítida,
a nostalgia fere
à transparência de um arbusto.
♠
Adivinhamos inquietos os olhos
e o poema dos dois corpos.
A nossa vida tem sido um passar
sem pedir licença.
Um dia e outro dia depois,
como quem adestra relâmpagos.
♠
Temos das coisas a lembrança das viagens
ignotas. E o sentido delas estilhaça
no primeiro espelho da memória.
Como aquelas noites muito brancas
povoadas de crimes inenarráveis.
Também as nossas mãos, vorazes,
tacteiam um percurso de sangue:
o de inquestionáveis desígnios do amor.
♠
De algumas perguntas tememos o som e o desenlace
delas, noite adiante, resguardo nenhum.
Sabemo-las assim lentas, um cristal
mais afiado, um abandono mais duro.
♠
Gosto da claridade penumbrosa
de adolescentes indecisos.
Gosto deles assim lentos
inaptos, vorazes, sedentos
do labor meticuloso e da
antiquíssima sabedoria de outras mãos.
Anjos devastados, senhores do caos
é para longe que partem.
O primeiro dos vinhos, bebido
da ânfora para a boca, alerta-os —
regressam agora às palavras e
aos gestos de antigamente.
Cumprem-se no jogo.
E ninguém suspeita de nada.
♠
É pela música que chego
e vos digo do insubordinado pulsar
de outra vontade.
♠
De alguns corpos sabemos o objecto
da sua prodigiosa duplicidade.
♠
Construímos a nossa casa
sobre um estendal de ruínas.
Habitamo-la com o desencanto
da injúria e somos, nela, o estrangeiro
e o seu último propósito.
Um sopro rente ao corpo
e o discurso táctil de outra
voz.
Ninguém diria do lento vagar
das apetências.
♠
Acolhia-se aos destroços
da velha casa, onde não encontrou
nenhuma das antigas pegadas,
entre si confundidas na sombra
da pedra, nos reflexos do lago, no
lajedo da vigília.
A nenhum deles encontraria —
perdidos entre Cartago e a Palestina
distantes do absinto, dos dias de fox
hunting, das leituras de algum árcade
pedante e apostólico. Estava só. Era no tempo
da canalha.
Para trás ficavam as capelas imperfeitas
e a tranquila majestade dos olmos.
Amara-os aos dois no intervalo
um do outro, na iminência sempre de um naufrágio
redentor.
E agora tinha as mãos vazias.
♠
Assim nos coube a pior aprendizagem
na cidade onde tudo escasseava.
♠
Os meus amigos andam perdidos
um pouco por toda a parte.
De Lausanne ao Rio é o vasto mundo
dos desencontros, os mesmos que
de Naxos a Londres e de Manhattan ao Cabo
animam exílios vários.
Andam em diáspora os meus amigos.
Une-os, porventura, a mesma nostalgia.
Feridas antigas hipotecadas
ao futuro.
♠
Aquela mulher não excessivamente velha
mas antiga o bastante, cheia ainda
de griserie, beberricava, nos intervalos de ler o Sun
o seu tea. Esquiva a memória do tempo
em que pudera ter sido a rapariga da página 3.
Deixara em Edinburgh três irmãs,
solteironas todas, e todas, como ela, enfermeiras
no front norte-africano, sob Montgomery.
Retornava a York, aigrette na capeline
e um fundado desprezo pelo nosso Observer.
♠
Nostalgia haurida
no dédalo da memória.
♠
No limite do cânhamo
o direito à diferença
é-lhes subliminar.
Vontade desatinada.
♠
Monossilabamos o medo
com que nos piores momentos
digerimos os trinta dinheiros.
♠
Londres tem o sossego
o verde e os pombos
que não vejo
nas vilas do meu país.
E um rio, parques, o tube.
♠
Anos a fio a vida lhe passou sempre
ao lado. Nunca exactamente ali.
Conhecera talvez demasiada gente,
com alguma dela aprendera o pouco
que valia.
Logrou esquivar-se
aos rituais da memória.
Persistiu com método e argúcia
bastantes. Estava
nos mares do sul
quando percebeu que tudo era nada.
E nada fez.
♠
A cidade incendiada pelo olhar desprevenido.
♠
Pouco sabia de espelhos: tem
agora de viver no meio deles.
Nada o desola. Chegou tarde
e fulge-lhe vontade nenhuma.
♠
O móbil era outro
mas foste capaz
de correr comigo
atrás da loucura
mais vertiginosa.
♠
Nenhum de nós passeia impune
pelos retratos: fazem-nos doer
os recessos da memória.
Deles saltam, por vezes, sustos,
primeiras noites, secreta
loucura, lábios que foram.
Interditam-nos sempre.
Trepam-nos pelo torpor
mais desprevenido, subsistem.
A sua perenidade é volátil
e cheia de venenosos ardis.
Um sopro no acetato.
Distintos, os seus contornos
não são nunca
os que supomos.
♠
Inapelavelmente próximo
descubro-lhe no linho
os olhos calcinados.
Nenhuma água
para tanta cinza.
♠
Vejo-os chegar à velocidade
da erva
inquietos mais que desolados.
Vêm mudos, sujos
muitas vezes, periféricos
a qualquer melancolia.
O campo, a cidade
e mesmo as gentes
lhes são estrangeiras.
♠
Poucos nos embaraçam já
mas uns quantos cintilam na névoa
da beira-rio,
o basalto a quebrar-lhes
os quadris.
♠
Transportam-se com a lentidão
de felinos.
Na ganga coçada dissimulam
pouco, e mal, o lume
das coxas.
Descem à tribo amotinada
que os surpreende
tesudos.
♠
A história deles pode ter sido,
por vontade alheia,
a simulação excessiva
e luminosa
de outra culpa maior.
Ainda que Inês fosse um chavalo
Pedro não andaria ali à toa
e a legenda dos algozes trucidados quadra
de viés numa corte predadora.
Importa pouco a conexão
estrangeira, as dezassete léguas
de um cortejo
siderante como aqueloutro que à luz
de seiscentas arrobas de cera
para sempre mediatizou
D. João Afonso Telo, miminho
da cantareira de el-rei.
A boca à mercê de novas dominações.
♠
Temos sido espectadores
de um tempo rarefeito.
Tudo nos inibe
e tolhe o passo.
E mesmo somos o intruso
na querela.
♠
Anna Soror e Wolfgang Peterson
comeram à nossa mesa.
D. Miguel não veio
a tempo,
distraiu-se com a passarada
de Mount Desert.
Ali estivemos, contando-nos.
Recordações do Village,
do barco para Pines.
Divine madness: num lapso
de febre
a lâmpada devolve-nos
o rosto glabro do castelhano.
♠
Temos que baste: a pátria à janela
e a vontade na cama.
♠
Nunca me tinhas dito: um quarto assim
— um quarto cheio de nuvens, tapetes
persas, apetites, laliques.
O tecto muito verde, a cama muito
alta, o espelho muito fundo.
Foder-te tudo: a paisagem,
o buraco, a esplêndida tesão.
♠
Ardias devagar.
Cercaram-te então de abetos
por todos os lados.
♠
Houvera ali um rosto
muito belo, mal disfarçado
na teia geométrica
de uma finíssima máscara.
Sulcos de um antigo
ardor.
Tranquilo e arbitrário
desapego.
A luz baixou tanto.
Aquele rosto é
um mapa: um mapa
crivado de cidades saqueadas.
♠
De noite morremos. Um lapso, um
só vislumbre
recuperam-nos do vórtice. O ilu
minado caminho das trevas
absorve-nos. Sobre
vive-nos o conhecimento. Na boca
de Prometeu não foi vão o grito
de Ésquilo.
Atroz sabedoria.
Tudo nos surpreende, desam
parados, nesse langor, nesse corpo
a corpo com o silêncio mais audível.
♠
Estradas muito claras, o desenho nítido
e longas o bastante para o tempo
que sobrava.
O incêndio ficava para depois
para mais tarde
nos dias de aborrecer
o tédio.
Entre o desencanto da escola,
a injúria de alguns, a praia de ao pé de casa,
um Rilke adolescente, as primeiras
exigências do corpo e o ritual
do mah jong, fomos cumprindo
o equivocado itinerário
de uma sobressaltada adolescência colonial.
♠
A noite toda a selva
dissolvendo-te em sândalo
e esquecimento.
Casas, degraus a prumo, águas
despedaçadas. Equilíbrio precário
num fio de luz.
Sob uma lâmina de mica
um veneno espera por nós
em Trieste.
♠
Nunca se deteve nas Escrituras.
Gostava de caminhar ao lado da noite
deter o falcoeiro
guilhotinar a interceptada luz
fazer da sede um vidro de passagem.
♠
Está um rapaz a arder
em cima do muro,
as mãos apaziguadas.
Arde indiferente à neve que o encharca.
Outros foram capazes
de lhe sabotar o corpo,
archote glaciar.
Nunca ninguém apagou esse lume.
♠
Esse mundo acabou,
sobrevive-lhe o eco de
algumas vozes.
O homem que erra de cidade
para cidade
conhece a voracidade dos espelhos
o brilho ácido da cal
o reiterado equívoco das marés.
E sabe, soube sempre
que a casa já lá não está.
Nem a casa nem a memória
que quiseram que tivesse.
Varrido por um sopro insaturável
o olhar vacila, acossado
entre ruínas
e a traficada solidão.
♠
Eu vi o tédio atravessar o tempo
atribulado da infância
e espelhar-se naquele rosto
ainda de menino. A cicuta,
o medo, tanto desamor
submerso na água de olhar.
Não tem memória. É de outros
a vontade, o apelo, a boca
acesa ao interdito. Vertigem
alguma o perturba. Mãos rudes
fixam-lhe o perímetro da pele,
secreto desígnio.
Imobiliza-se lentamente na claridade
líquida da cidade
e fosforesce em contraluz.
♠
Deve ter sido o último gesto que fez.
Há sítios assim
desabridos como a praça do Duque
da Terceira.
E depois não fica mais nada a não ser
um corredor apertado, íngreme e rouco
de costas voltadas para o rio.
Foi portanto o seu último gesto.
Tamanho ímpeto de silêncio fazia
imenso barulho.
♠
Iam demasiar-se, pelo imprevisto
dos pauis, aos rapazes.
E nunca nenhum deles trocou
por outro
o embaraçado ímpeto dessas tardes
de Julho.
♠
Ficava indeciso entre a neblina
e as gencianas iluminadas.
Às vezes perdia-se do rapazio.
Deixava-se levar pelo pequeno fabro.
Ele sabia: do que ele era capaz
apesar daqueles calções de linho puído.
♠
Hesita bastante. O inferno
é uma disciplina como qualquer outra.
Dias de vinho e rosas
pagos a peso de flagelo.
O arrebatado comércio dos sentidos ?
Na cidade aberta a dementada luz.
♠
Como se crias de cadela
lamber da matilha o adolescente
desenho de seus corpos
assassinos.
Até que um grito, um grito
irretorquível.
♠
Um vento camiliano risca os olhos
vidrados do chacal,
varre a laminada grafite das muralhas,
deflagra no xisto.
É tudo muito rápido.
A maré. O outro. E a demanda.
♠
Noite cega. Mandrágora. Cinza primitiva.
Irás ao outro lado dizer que não.
Caminharás de frente, caminharás junto à falésia.
Caminharás em assombro.
A todos dirás o mesmo.
Nenhuma mulher trácia te deterá.
♠
Os cães eram mudos e deu com eles por
acaso, farejando relógios de areia.
Naquela terra árdua havia ainda o enigma
dos homens e do seu alfabeto traído.
Podia pensar-se num simulacro. Era apenas
método. A obstinada construção de uma vontade
sem objecto.
Teria voltado fosse como fosse.
♠
Antes de nós outros tentaram.
Muitos não sabem que viagem alguma
se repetirá. Toda a demanda é vã.
Aquele muro não está ali
por acidente. Sequer a gosto de qualquer
feitor com inclinações pré-rafaelitas.
A manhã tinha ficado parecida com um pedaço
de vidro e era nítida a evidência de desastre.
♠
As coisas são como são.
Sempre haverá uma mão senhora de exemplar
desprendimento, atenta ao sufoco
e à desolação da alma.
Assim foi, por socalcos de tabaco,
o enredo dos caminhos, ardente magia.
Pouco importa saber
que toda a paisagem mente.
♠
Gente propensa a ver a luz por um funil
a vê-la assim em corredores,
esplendidamente ignorante das forças vitais,
de qualquer alegoria. Esse sentido
mediúnico, três vezes milenário, de fabular
a perversa mudez dos animais.
Contudo eles estão onde os encontramos.
E estão simplesmente calados.
♠
Ainda se lembrava dos seus tempos de rapaz.
Quando era tudo de perfil. Nem podia ser
de outro modo: de perfil e em diorite
como nos retratos do Império Antigo. Muitos
iriam acolher depois os ritos do primitivo
estigma. Nos parques, na penumbra dos relvados,
ficou dessa queimadura uma legenda. Alguns
resistem. Paralisa-os a vertigem de uma estreita
afeição. No limite do conhecimento, a tremer
de alegria, encontram aquilo que
tinha sido esquecido. A cabeça entre as pernas
nem sempre se distingue de um sussurro
de lâminas. A música de tal desígnio percute
nas sílabas todas do inominado canto. Às vezes
por um punhado de lágrimas, equívoco maior.
É claro que a iniquidade continua impune.
♠
Negros e jarros não voltam a ser como dantes.
De Coney Island ao Whitney a insurreição
teve o teu nome. Por corpos e caules olhavas
com uma mesma e violenta candura
as aráceas e os deserdados do downtown,
putas e princesas, amigos sem o premeditado
cálculo das prebendas.
Houve quem começasse a morrer muito depressa.
♠
Toda a noite a luz multiplicou
o instantâneo de um rosto intraduzível.
Esquiva, a tua morte não escapou
à ladainha de regra.
Correu uma versão torpe quando
te viram a sorrir
uma ironia de druida clandestino,
indiferente à voragem dos bárbaros.
♠
Nada de muito óbvio mas havia
qualquer coisa de refractário
no seu nomadismo.
Alguém um dia referiu
episódios escabrosos de antiquíssima
factura.
Sempre a espessura de um canalha
haverá de misturar urzes
com o delito oculto de algumas
quimeras. Vivia em paz quando
a desordem chegou
mas o plot mudara a personagem.
♠
Hesitas quanto à natureza do travo na língua,
a boca sempre vulnerável ao bitterness
do chilled pineapple-moscato zabaglione,
ou só o frio a arder de Union Square para Central Park West.
Até que os elefantes olham para ti
com um garbo irreprimível.
(Nenhum deles sabe que isso acontece
para que se repita uma cena.)
Álvaro de Castro, patrono de outra prodigiosa
manada,
também não sabia.
Mas foi lá que tudo começou,
entre torcidos manuelinos e calções de caqui
com ravina e mar ao fundo.
Trinta anos de intervalo cabem inteiros
neste confronto.
Desvias o olhar e corres para o clarão do gelo
e o ziguezague dos batedores.
A tarde cai do outro lado mundo.
Tu ficas ali, blindado em cashmere.
♠
O doutor Cukrowicz não queria acreditar na sinuosa
réplica da senhora Venable,
que misturava príncipes da Renascença e merceeiros
enriquecidos
para explicar a diferença do filho.
Sebastian não teve tempo. Outros, como ele,
descobriram cedo que a luta dos negros freedom fighters
era igual à sua,
e trocaram as voltas às mamãs.
Eles sempre souberam que a rua é um campo de batalha,
na Bowery como no Restelo.
A senhora Venable é que nunca percebeu.
Não gostava de caça
e associou sempre febre
a quarteirões pouco recomendáveis.
♠
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