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Esta marginália de extractos — nenhum
texto é transcrito na íntegra — está longe de ser exaustiva. Em
Bibliografia pode consultar um inventário alargado da bibliografia passiva.

Acabei de reler o primeiro romance de Eduardo Pitta:
Cidade Proibida.
A impressão inicial mantém-se: do ponto de vista
formal, este livro é uma raridade em Portugal. Pitta sabe contar uma
história (neste caso, a relação atribulada entre Rupert e Martim). A fluidez
narrativa — dominante em Cidade
Proibida — é a técnica literária mais
difícil de encontrar na prosa portuguesa, ainda e sempre marcada por
obscuras divagações metafísicas. Pitta tem outra característica invulgar
entre nós: as suas frases são enxutas e limadas até ao limite.
Pitta é um grande poeta, mas é na prosa que poderá
marcar a diferença. Cidade Proibida
é um bom romance de alguém que revela potencial para escrever grandes
romances.
Henrique Raposo, Expresso, Lisboa, 2008.
A publicação do primeiro romance de Eduardo
Pitta representa uma novidade nos dois contextos em que se insere
– o da ficção portuguesa
contemporânea e o da própria obra do autor. [...]
Olhemos, então, para esta
Cidade Proibida
e assinalemos desde logo um estilo pessoal, assente numa escrita ora muito
directa e incisiva, por vezes mesmo abrupta, ora subtilmente irónica e com
alguma tendência para o understatement, mas sempre pronta a desferir
os seus golpes a propósito da realidade portuguesa
– uma realidade que o autor
conhece bem, embora abordada muitas vezes a partir de um ângulo exterior ou
"estrangeirado" [...]
o que transforma este livro numa obra relevante também no domínio da crítica
social. Para assentarmos ideias, diria que talvez o maior mérito de
Cidade Proibida
resida na articulação sempre fluida entre dois grandes propósitos nem sequer
contraditórios: por um lado, o de analisar as características, os hábitos ou
os vícios disso que, à falta de melhor nome, podemos designar por comunidade
gay; por outro lado, o desejo de proceder a uma crítica, por vezes
muito acutilante, de uma certa sociedade portuguesa tradicional e
conservadora, ainda com traços fortemente elitistas, e cuja hipocrisia surge
denunciada através da desconstrução de muitos comportamentos dos seus
protagonistas.
[...]
É todo este quadro mental que o romance de Eduardo Pitta vai dissecando com
um bisturi cuja lâmina parece aguçada pelo olhar quase científico de um
entomologista que nos estudasse como insectos, como se os nossos
comportamentos sociais obedecessem a leis antigas, também elas quase
biológicas, que no caso português levaram séculos a estabelecer-se e não se
desfazem por decreto.
[...]
Outros motivos poderia haver para lermos este romance diferente, que de
certo modo só poderia ter sido escrito por alguém como Eduardo Pitta nesta
fase da sua vida, transmitindo-nos as lições de uma experiência acumulada ao
longo dos anos.
Fernando Pinto do Amaral, Jornal de Letras, Lisboa,
2007.
Cidade Proibida, de Eduardo
Pitta, aparece simultâneamente com a reedição de
Persona, pequeno volume de três contos que se articulam
brilhantemente com esta última obra. Se Persona
é um hino à juventude, às novas experiências e à sexualidade triunfante,
Cidade Proibida é uma história de
adultos desencantados, regidos por preconceitos sociais, materiais e
sexuais. [...] O autor remete-nos para os condicionamentos de uma liberdade
que se apresenta como um estado de felicidade erótica e de contentamento
estético mas que, quando alcançada, se revela fugaz e impermanente. [...] Os
heróis líricos e dramáticos deste Romeu e Julieta contemporâneo são
Martim e Rupert, amantes que tacteiam no escuro sem encontrar o entendimento
e a razão. [...] De Martim passa-se para a figura de Afonso nas páginas de
Persona. Como o próprio título
indica, Pitta remete o leitor para as máscaras usadas no teatro grego [...]
e para as misteriosas e insondáveis máscaras africanas. No último conto,
Afonso, já a cumprir o serviço militar, em 1970, é protagonista de um caso
que o leva à prisão (militar) pelo seu envolvimento sexual com outro homem.
O autor desfaz tabus e põe a nu a instituição militar e o absurdo da guerra.
Dos três contos, este é
o mais eficaz, atravessado por uma beleza estranha e pungente, aliada a uma
crueza que revela os meandros de uma sociedade que se entregava a todo o
tipo de práticas, mascaradas por uma “civilizada” e educada camada de
hipocrisia. [...] Será necessário falar da temática gay na obra de
Eduardo Pitta? Podemos colocá-lo a par dos escritores canónicos que são
analisados à luz desses estudos: Oscar Wilde, Thomas Mann, E. M. Forster,
André Gide, Jean Genet, Christopher Isherwood, William Burroughs, Gore
Vidal, Carson McCullers, James Baldwin, Djuna Barnes, Marguerite Yourcenar,
que se juntam aos contemporâneos David Leavitt, Jeanette Winterson, Sarah
Waters, Jim Grimsley, entre muitos outros. Pitta
aproxima-se do celebrado Allan Hollinghurst que ganhou o Booker Prize com
A Linha da Beleza, um clássico do género, onde se cruzam as tensões
sociais, familiares, políticas, sentimentais e físicas (com o eclodir da
Sida). De acordo com Richard Hall, autor de antologias de textos
gay, este género mudou desde o fim da 2.ª Grande Guerra, passando de
«uma literatura da culpa e da desculpa para uma de desafio político e de
celebração da diferença sexual». Pitta segue, decididamente, esta segunda
tendência e tem, a seu favor, vastos conhecimentos de Literatura que
entrelaça com habilidade na sua própria ficção. Mas enquanto que,
basicamente, a trama de Cidade Proibida,
tanto poderia ser construída entre dois homens, duas mulheres ou uma mulher
e um homem, a dos contos em Persona
é vincadamente e triunfantemente gay, muito mais excitante, vigorosa
e reveladora. A obra de Eduardo Pitta é corajosa, desassombrada,
inteligente, clara e escrita com paixão e sabedoria.
É difícil, na Literatura Contemporânea, ler um bom livro em que se fala
livre e fulgurantemente de sexo, do prazer erótico e da transgressão. E,
também, da perda. Eduardo Pitta fá-lo com a mestria de um grande narrador.
Helena Vasconcelos, supl. Ípsilon, Público,
Lisboa,
2007.
Com a homossexualidade como pano de fundo, Eduardo Pitta retrata neste
romance singular uma Lisboa de privilegiados, onde o amor ocupa um lugar
sempre periclitante. [...] Com uma tessitura que atravessa mais de 40
personagens, Cidade Proibida é
uma história com muitas histórias lá dentro. Cada uma das figuras carrega
com ela um passado, um meio, uma educação que as agrupa em famílias de
sangue ou de afinidade, núcleos irredutíveis e protegidos por densas
muralhas. [...] Com um peso exagerado dos estrangeirismos compensado por um
conhecimento profundo dos hábitos e costumes do meio que retrata, Eduardo
Pitta não condescende com sentimentalismos ou redondilhas. O sexo é
apresentado a cru, os tiques mostrados sem contemplação, a História
portuguesa recente mencionada sem pruridos ou filtros de boa consciência.
Por tudo isto, obra de «género» ou não, Cidade
Proibida é um romance igual a poucos.
João Villalobos, revista Blitz, Lisboa, 2007.
Persona, livro de contos de
Eduardo Pitta, agora reeditado, a par da edição do primeiro romance do
autor, Cidade Proibida. Quem
colocar este livro no gueto da literatura gay não está a ver o filme
todo. O que mais interessa na escrita de Pitta é a forma. Pitta poderia
escrever sobre a epistemologia do pinguim, que seria bom na mesma. Pitta
escreve de uma maneira quase inédita para a prosa portuguesa: frases cruas,
secas, duras, limadas e cortadas até ao limite. Um assomo de clareza numa
terra de palavrosos. A clareza, em Portugal, é rara. Sena, Eça, Nemésio,
Carlos Oliveira (os primeiros). E pouco mais. Tenho sempre a impressão que
os prosadores portugueses querem ser russos no mediterrâneo. O escritor
português típico acha que cortar texto é pouco edificante; deve achar que
uma frase saída do seu génio não pode ser cortada, limada, deitada fora. Por
isso, a nossa prosa é o que é: medíocre [...] Pitta choca com tudo isto. A
escrita de Pitta mostra que o português não está destinado a ser prisioneiro
do obscuro, do ininteligível.
Henrique Raposo,
Atlântico, 2007.
Seria Bovary uma personagem mais interessante se Flaubert não fosse,
lui-même, Madame? Teria Karenina falhado o comboio se Tolstoi, ao invés
de longas barbas, usasse saias? [...] O assunto tem a complexidade que lhe
quisermos atribuir. Neste caso, vem a propósito da recente ficção de Eduardo
Pitta, Cidade Proibida, um livro
ao qual anda por aí colado o epíteto de romance gay. [...] Cidade
Proibida é muito mais do que uma história de amor sem final feliz entre dois
homens, mesmo sendo verdade que «the novel tells a story». Retrato de um
meio social solipsista, cheio de gente enfatuada e cautelosa, o livro é uma
assumida crítica de costumes, que sabe que a palavra [...] «exige ser posta
em confronto com um mundo que possua uma realidade própria.» [...] No
conjunto, é um texto rápido e nervoso, onde os desvios históricos
(acompanhados de notas) reforçam uma filiação contemporânea, mas que peca
por não levar mais longe o cinismo. Linguístico e filosófico. Teríamos um
livro à medida do seu óptimo epílogo.
Ana Cristina Leonardo, Expresso, Lisboa, 2007.
Poeta, crítico, ensaísta e blogger
– com presença diária no blogue
Da Literatura,
de onde saíram os textos do volume Intriga de
Família, recém-editado pela Quasi
–, Eduardo Pitta é uma das vozes
mais ácidas e contundentes do panorama cultural português dos nossos dias.
Erudito e blasé, polémico e sem papas na língua, atento à actualidade
e rápido a reagir, escreve sobre tudo e mais alguma coisa (do S. Carlos à
Ota, passando pelos melhores restaurantes), com um desassombro que lhe causa
não poucos engulhos num meio habituado a mesuras, verniz e salamaleques.
Embora a sua obra remonte a 1974 [...] estreou-se na ficção apenas em 2000,
com Persona, um conjunto de três
narrativas breves que deu à estampa numa editora discreta
– a Angelus Novus, de Coimbra
– e que republicou agora na
QuidNovi, antecipando o lançamento do seu primeiro romance:
Cidade Proibida. Uma coincidência
que faz todo o sentido e não foi certamente fruto do acaso. Porque o que
Persona deixava antever é o que
Cidade Proibida confirma: a
emergência de um narrador sólido, sem debilidades de principiante nem tiques
de consagrado, capaz de contar uma história com precisão e lhaneza - coisa
raríssima em Portugal. Além disso, há evidentes pontos de contacto entre as
duas obras. Se Persona era o
retrato nítido, em três etapas bem marcadas no tempo, da formação da
identidade homossexual de Afonso Cordes Sacadura, com a decadência do
império colonial em Moçambique como pano de fundo e uma crítica explícita a
dois universos repressivos (a escola e o exército), em
Cidade Proibida deparamos com um
fresco ao mesmo tempo minucioso, cruel e desencantado da sociedade
portuguesa contemporânea. Ou, para sermos mais exactos, de uma certa faixa
da sociedade portuguesa: a upper-class que vive fechada numa redoma,
algures no eixo que vai das mansões da Linha à Lisboa das elites, reduzida
ao «triângulo cujos vértices» passam pelo «Príncipe Real, a Praça das
Amoreiras e o Saldanha». Pitta demonstra conhecer muito bem este mundo de
pessoas com apelidos sonantes [...] altivos, snobes, quase todos hipócritas,
convictos da sua superioridade social e «imunes ao quotidiano». É neste
cenário etéreo que arquitecta a sua história de desagregação amorosa, focada
na relação de um casal gay
– Martim / Rupert
– sujeito tanto às pressões do
meio (Martim) como a um cocktail de ressentimento classista e sombras
de um passado mal resolvido (Rupert). O que mais impressiona no romance de
estreia de Pitta é a admirável desenvoltura da prosa (que se lê numa
vertigem), a elegância estilística e o domínio das técnicas narrativas. Há
um fio de acontecimentos que se sucedem na Lisboa do início do séc. XXI,
subtilmente marcados pela História (dos traumas coloniais ao 11 de
Setembro), e uma série de flahsbacks que se encaixam no puzzle
com uma justeza próxima da perfeição. O resto
– e não é pouco
– tem a ver com a coragem de
escrever sobre sexo da forma mais gráfica possível, sem eufemismos, abrindo
de vez o caminho para a afirmação de uma literatura homossexual à la page
com o que de melhor se publica lá fora, nomeadamente no Reino Unido (cf.
Alan Hollinghurst). Não tenho dúvidas aliás de que
Cidade Proibida, se Pitta fosse inglês, seria facilmente
candidato ao Booker. Mas será que teria (ou terá) hipóteses, em Portugal, de
ganhar um merecido prémio da APE? Duvido muito.
José Mário Silva, Diário de Notícias, Lisboa, 2007.
Devo confessar: comprei o
livro sem grandes esperanças, nem desesperanças. Nada sabia do autor a não
ser que era nosso companheiro da blogosfera, que assinava e escrevia, quase
na íntegra, um bom blogue,
Da Literatura,
e que lera dele, aqui e ali, críticas literárias interessantes. Chama-se
Eduardo Pitta, o romance de estreia é
Cidade Proibida,
e, pelo que percebi ao folheá-lo na Fnac, é uma obra daquelas que muitos vão
catalogar de literatura gay e colocá-la na banca assim denominada.
Esta classificação parece-me de todo inqualificável, a não ser para
facilitar vendas: os gays que procuram literatura gay vão àquela
banca e escusam de se perder no meio da literatura hetero. Mas haverá
literatura gay? Oscar Wilde e E. M. Forster são literatura gay?
E Somerset Maugham? E Jean Cocteau? Ou serão simplesmente literatura? Para
mim basta-me que seja boa literatura, muito boa mesmo. Ora Eduardo Pitta
surpreendeu-me em toda a linha. Li
Cidade Proibida
de um fôlego, e não por ser gay, e não também pela história que
conta, mas sobretudo pelo estilo, pela vertigem da narrativa, imparável,
pelo toque blasé, mesmo um pouco snobe que impõe e mantém com uma frescura
notável ao longo de toda a obra, e que relembra o magnífico dandismo de
Oscar Wilde, aqui retocado por um look muito pós-moderno. Óbvio que
também se pode chamar à conversa o
Maurice,
de E. M. Forster, mas curiosamente a escrita lembrou-me mais a de alguns
escritores americanos da década de 90 [...] Há um gosto pelo rigor
matemático na escrita que poderia ser fastidioso, mas funciona precisamente
ao contrário, é exaltante. Não há muitos pormenores, a escrita corre ágil,
mas há uma precisão insuspeitada. Um exemplo à sorte do abrir da página:
«Nessa tarde não voltou ao Instituto. Andou a pé horas a fio e só quando o
corpo cedeu descansou num banco do Campo dos Mártires da Pátria. Depois foi
à Trindade comer um prego e a seguir meteu-se na sauna do Largo da
Misericórdia.» Um rigor que leva o autor a abrir o seu romance com uma
Tábua de personagens onde refere e sinaliza cada personagem e cada
família [...] O que transforma este romance, para mim, numa das revelações
dos últimos anos. É evidente que temos de fazer uma referência ao teor
homossexual do livro. Obras “maricas” é o que há cada vez mais. Escritas
amaricadas, “poéticas”, como que a desculpar “a coisa” com o sentimentalismo
balofo das “emoções em êxtase.” Aqui não há nada disso, esta é uma história
de amor e sexo igual a qualquer outra, o realismo de certas situações quase
faz esquecer que os amantes são do mesmo sexo. São pessoas que fazem sexo.
Assumidamente. Sem má consciência. De resto as descrições deste tipo são as
que são, as precisas, as indispensáveis, não se especula com o facto. Um
excelente romance de um autor nascido em Lourenço Marques a 9 de Agosto de
1949, e que viveu em Moçambique até Novembro de 1975. [...]
Lauro António,
Lauro António
Apresenta...,
2007.
O
primeiro grande romance gay da
nossa literatura, acabou por escrevê-lo
Eduardo Pitta. [...] Haveria de ser
Eduardo Pitta, com esta
Cidade
Proibida, acabada de sair
na Quid Novi. Do contista de
Persona
(2000, agora reeditado na mesma casa)
poderia já esperar-se a façanha. Mas as
grandes obras são sempre uma surpresa. O
livro é um must. E não só pela
temática (sempre curiosa, mas nunca
garantia de qualidade), como sobretudo
pela valente respiração de que o relato
se toma. Os lugares, as épocas, os
ambientes, tudo rodopia com nitidez, com
embalo, com vertigem (só aqui e ali
excessiva para a concentração comum,
como a deste leitor), criando sabiamente
expectativas, conferindo colorido a
personagens e brilho a episódios.
Assinale-se a crua limpidez do
vocabulário erótico. Assinale-se,
também, a abrupta e bem gerida inclusão,
em existências queque, do elemento
bas fonds. Lamente-se, sim, a
frívola atracção das etiquetas, a
obsessiva pose dos livros, da música,
dos vinhos, das iguarias, da hotelaria,
dos diplomas, que roça a obscenidade na
descrição dum jantar volante, quase a
meio do livro. O leitor verá. E tentará
perceber porque é que
–
banal exemplo
–
haverão uns sneakers de ser tão
fatalmente Louis Vuitton. Ninguém morre.
Ninguém fica com ninguém. E os primeiros
amores, mesmo se proletários,
revelam-se, embora definitivamente
perdidos, os verdadeiros.
Definitivamente perdidos? A estas
alturas do campeonato (perdoe-se o
registo), a malta cheira as sequelas. De
momento, basta esta
Cidade
Proibida para encher as
medidas.
Fernando Venâncio,
Aspirina B,
2007.
Em seu recente Os Dias de Veneza,
Eduardo Pitta dá a lume as anotações alusivas a cinco dias passados na
cidade dos canais e vaporettos. O resultado ultrapassa o eventual
registo de impressões de um viajante culto [...] em sua aparente
simplicidade, Eduardo Pitta apresenta um dinâmico e refinado discurso sobre
aspectos históricos, arquitectónicos, culturais e gastronómicos de Veneza,
produzido ao sabor do contacto e da breve permanência na cidade, acrescido
de notas climáticas e de irónicos comentários a respeito da voracidade
turística ou da fatuidade das relações humanas. [...] A ordenação textual
[...] distancia-se das narrativas íntimas, propícias ao exercício da
sondagem introspectiva [...] Se o diário não tem uma técnica peculiar,
prestando-se a uma diversidade de enfoques, da crónica à poesia, do ensaio
ao relato, sob a chancela de Eduardo Pitta mostra-se erudito, ágil,
elegante. A literatura em língua portuguesa alcançaria um significativo
legado, caso o autor, intelectual polivalente, articulado em inúmeras
esferas do saber, a ele se dedicasse em novos projectos.
Edgard Pereira, Scripta,
n.º 19, Pontífica Universidade Católica de Minas Gerais, Belo Horizonte (Brasil), 2006.
Muito se escreveu sobre La Serenissima. Chegou
a vez de Eduardo Pitta, que conhecíamos como poeta, ensaísta, crítico e
contista, e agora nos dá um breve diário veneziano.
Os Dias de Veneza começa no dia
12 de Setembro de 2004 e, logo a abrir, o autor escreve: «Fez ontem três
anos o mundo mudou. Começou uma nova era, mas nem por isso o passado
desapareceu. Em que outro lugar senão Veneza o saberemos?» Está dado o tom.
E se a narrativa tenta evitar o confessionalismo, nunca evita a mordacidade.
Em estilo fluido, a inscrição de locais, datas e horas não indicia
comprometimento íntimo. As breves excepções acham-se no aniversário do
companheiro, com quem viaja, e no episódio de transfert provocado
pelo encontro com o casal alemão que viveu em Moçambique: «Um gesto bastou.
Viram que barrava os camarões com manteiga, velho hábito laurentino, e o
transporte consumou-se. Estão lá outra vez. Nenhum deles diz Maputo,
dizem sempre Lourenço Marques. Confessam-se presos às recordações desses
anos. ‘Os mais felizes da nossa vida’. Não esqueceram nada.» [...] A
estratégia passa pelo corte da exposição excessiva. Pitta sempre dominou a
elipse. [...] A colagem ao real não anula o carácter ficcional, através da
perspectiva subjectiva e digressiva do sujeito que percorre Veneza e a sua
história. É neste sentido que se inserem as notas sobre locais emblemáticos
[...] A ida ao Grassi provoca um desabafo: «O pior é a turba. Curioso. No
Palazzo Ducale não haveria cem pessoas. Na retrospectiva Turner metade, e o
resto do Correr vazio. A colecção Guggenheim tinha bastante mais que os
outros, mas também era outro tipo de visitantes, nem miudagem nem grupos
organizados com guia palrador. Hoje de manhã, desabou tudo no Grassi.» Vêm a
propósito as invectivas sobre ‘os turistas de pacote’. Citando
Brodsky, o narrador não os poupa à classificação de «manada», exprimindo
aversão a viagens organizadas por terceiros. Sobre a «febre» das gôndolas,
um comentário exemplar: «Agora os turistas vão aos molhos (é mais barato a
dividir por seis), a maioria sem saber para onde, sorriso afivelado à
posteridade hi-tec.» Nestes comentários abunda a ironia e o
homoerotismo: «O Gritti [...] tem o bar repleto de ingleses déclassé
que dão gorjetas de cem libras. Como todos têm a heterossexualidade bem
alardeada, não se coíbem de apalpões no rabo uns dos outros. O staff
não mexe um músculo da cara»; ou, no recinto da Biennale, «A loja é
território de descarado camping. Camping, como se dizia em
África, ou seja, cruising, tal como fixaram os gay studies.»
Pitta detém-se a descrever a gastronomia local e os ambientes, muitas vezes
esplendorosos. O elitismo do autor é uma forma de consciência de
classe que suscita o tipo de mitificação que associamos a Veneza. Tudo serve
para agitar a imaginação e conduzir ao devaneio. [...] A melancolia é
revertida pela grandeza da experiência e pelo investimento no diário, forma
de contrariar o tempo e combater a memória fugaz, congelando o passado
filtrado já pelo presente da escrita. Num relato subjectivo e visual, afluem
os comentários sobre os espaços, as pessoas, as manifestações de gosto, a
sexualidade. A exaltação de Veneza não se limita a isso, pois realça a
vivência do sujeito, testemunha a colagem do corpo àquele lugar, e daquele
lugar à memória e ao modo como se passa a ver o mundo. Ao fim e ao cabo,
tudo isto tem que ver com a experiência única e irrepetível da água e do
tempo.
Paulo Simões Mendes, supl. Mil Folhas, Público, Lisboa,
2005.
O título Persona
origina-se do latim, referindo a antiga máscara dos actores. [...] A
trilogia de contos de Eduardo Pitta mistura a evocação da guerra colonial em
Moçambique, distanciada do natural enquadramento político, à liberação do
corpo e da sexualidade, num contexto-limite de trocas culturais e
reciprocidade. [...] A contiguidade da libertação política e da concepção
libertária da sexualidade é percebida pelos aparelhos estatais (entenda-se
imperiais) como o desmoronar de um domínio que se imaginava consistente e
eterno. O último conto atinge em cheio as estruturas supostamente sólidas do
Império luso, ao revelar criticamente o lado pouco convencional de um
quartel, desvelando a sexualidade nada exemplar de diversos e notáveis
actores sociais [...] Os outros lugares focados na trilogia, a escola e o
deserto, não são menos significativos no diagnóstico de uma literatura
caudatória das preocupações (a)moralizantes da escrita libertina do século
XVIII. [...] Eduardo Pitta vem construindo uma obra em três vertentes: na
poesia, no ensaio e, mais tardiamente, na ficção. [...] Assinalável o seu
trabalho pioneiro no âmbito dos gay studies em Portugal, com a
publicação de Fractura. A Condição Homossexual
na Literatura Portuguesa Contemporânea (2003). Surpreende
esta sua estreia, pela desenvoltura como constrói numa linguagem ágil,
dinâmica, num português globalizado, receptivo a expressões inglesas,
francesas e crioulas, uma ficção alegre e ousada, refinada e demolidora,
irónica e encharcada de cepticismo. Ninguém percebe que antes atravessou o
aparentemente plácido jardim da poesia [...] sem temer o lado vulgar da
realidade, a marca da lama ou do lodo, sem intimismo pegajoso, sem o tom de
vítima por apalpar a lama ou o lodo, quando necessário.
Edgard Pereira, Revista do Centro de Estudos Portugueses,
n.º 34, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte (Brasil), 2005.
Poesia «firme, brusca e breve, feita de palavras poucas», assim
caracterizou Eugénio Lisboa a de Eduardo Pitta, cuja obra tem vindo a manter
as características de um expressionismo acentuado, capaz de captar nítidas e
aceradas imagens do real, numa espécie de anti-lirismo, porventura bebido
nalguma poesia modernista inglesa, mas que não exclui uma grande intensidade
concentrada de verso para verso, como que para contrabalançar a efemeridade
inevitável dos momentos evocados sem qualquer sentimentalismo, muito em
especial os relacionados com a sexualidade e com o encontro amoroso. O
sentimento de apatrídia («Apátridas que somos / daquela pátria que nos
sobra») não tem apenas a ver com a tardia radicação em Portugal [...] É, talvez mais do que isso, a expressão de uma
funda estranheza perante o mundo civil convencionalista e conformado que por
cá veio encontrar [...].
Vasco Graça Moura, in
Memórias dos Dias na Poesia Portuguesa,
Diário de Notícias, Lisboa, 2005.
Escrever sobre Veneza
– a Sereníssima
– implica sempre um grande
risco. [...] Ciente dos riscos, o poeta e crítico Eduardo Pitta não deixou,
mesmo assim, de publicar em livro o seu diário veneziano [...] e convém
desde logo destacar a sua coragem. Mais do que um caderno de apontamentos
pessoais, Os Dias de Veneza
apresenta-se como o "relato de um epicurista na cidade dos Doges". E é disso
que se trata, literalmente o "epicurista" a exibir as suas idiossincrasias
de bon vivant, tendo a "cidade dos Doges" como luxuoso pano de fundo.
Quem estiver à espera de algo mais substancial do que as extravagâncias
previsíveis de um dandy ávido de requinte, deve procurar noutro lado.
Aqui e ali, Pitta deixa-se inebriar pelos belíssimos nomes italianos das
ruas ou das igrejas e a escrita transforma-se numa espécie de toada
cantabile [...] Pitta é, indiscutivelmente, um cronista atento e subtil,
mestre na arte da elipse. Por exemplo, a forma como introduz a nostalgia de
Moçambique [...] consegue ser confessional sem o expor demasiado. E os
flashes em que narra jogos de sedução nocturnos, com sexo na sombra e
vultos ajoelhados em "libações pagãs", são do melhor que a literatura gay
tem para oferecer. Acontece que o livro não respira, sufocado pela pose
blasé do seu autor. [...] Nada contra. Mas é pena que um provável bom
livro de viagens se transforme assim, ingloriamente, num pretensioso
Lonely Planet para ricos.
José Mário Silva, Diário de Notícias, Lisboa, 2005.
The timeliness of
Lusosex’s
appearance is confirmed by the recent publication of what is perhaps the
first history of Portuguese literary homosexuality. Eduardo Pitta’s
Fractura
is a
short but well proportioned survey that implicitly – and very persuasively –
proposes the delineation of a national canon of representations of male
homosexuality in twentieth-century letters. For Pitta, homosexuality emerges
as a recognizable, if diffuse and often dissimulated, identity in the poetry
of António Nobre, Pessoa and António Botto, and in particular in Sá
Carneiro’s ‘inquietante jogo de espelhos’ [‘disquieting game of mirrors’]
A
Confissão de Lúcio
(1913) [Lúcio’s
Confession]
(Pitta 2003: 12). By the mid-century, and despite the oppressively normative
sexual ideology of the
Estado Novo,
there exists a gamut of identities and styles of expression. This runs from
the ‘perfil hierático’ [‘hieratic profile’] of Eugénio de Andrade – long
revered by gay and straight readers alike for his delineation of desire for
a non sex-specific muse – to the camp and, under Salazar, often unacceptable
candour of Mário de Cesariny (2003: 10). Pitta devotes considerable
attention to the often perceptive and sympathetic depiction of homosexuality
by (presumed) heterosexual authors, including Eça, Nemésio and especially
Jorge da Sena. As Pitta illustrates, da Sena’s depictions of poorly
disguised sexual ‘deviance’ and of homophobic anxiety are remarkable for
more than the progressive credentials of their critique of the
Estado Novo’s
narrow and intolerant prescription for exemplary masculinity. Sena’s
sensitivity to homosexual men’s experience of alienation and persecution
constitutes an effective point of departure for the critique of a more
generalized paranoia about belonging and about difference under
(pseudo)-Fascist rule. Like Quinlan and Arenas, Pitta is alert to the
political implications of imposing anglophone labels on lusophone culture,
and he stresses some specifically Portuguese characteristics and contexts of
the literary corpus that he identifies. His consideration of the fiction of
Guilherme de Melo, for example, focuses especially on how the represented
dalliances between settlers, army conscripts and natives in 1960s Mozambique
critique, pervert, but also replicate the particular generic and racial
hierarchies ordering Portuguese colonial society. Nevertheless, the pull of
foreign cultural models is acknowledged. Pitta organizes his survey around
his attempt to stabilize Portuguese definitions of the increasingly
well-established loanwords ‘homossexual’, ‘gay’ and ‘queer’. Moreover, he
bases his distinction between
literatura
homossexual
and
literatura gay
on
reference to what he considers the global watershed precipitated by the 1969
Stonewall riots in New York (2003: 29). Despite the increasing acceptance
and visibility of a gay subculture in Portugal, Pitta argues, there has to
date been ‘nenhum escritor português gay’ (2003: 29) [‘not one gay
Portuguese writer’]. Rather, Pitta finds traces of ‘uma identidade sexual e
social gay’ (2003: 19) [‘a gay sexual and social identity’] in the work of a
tiny handful of lyric poets: in Joaquim Manuel Magalhães’s elegiac yet angry
allusions to the AIDS pandemic, in the darkroom and bath-house metaphysics
of Armando Silva Carvalho, or in the exuberant consciousness of the gay body
in Luís Miguel Nava. Prominent amongst this coterie is, unsurprisingly, Al
Berto. While Pitta sees Al Berto’s work as pioneering the representation in
Portuguese literature of homosexuality on its own terms, he stresses that
its principle focus is not a gay lifestyle but the queer and
counter-cultural subversion of a prevailing patriarchal orthodoxy. Pitta
rejects a conclusion of Portuguese cultural ‘backwardness’ with the argument
that the nation’s writers simply feel no compulsion to invest in the
‘superação semântica da identidade do desvio’ (2003: 31) [‘the semantic
transcendence of an identity of deviation’] – presumably because Portuguese
homoerotism has mostly been too invisible to get branded as deviant. I say
‘presumably’ because Pitta’s conclusion is exemplary of the frustratingly
elliptical nature of his absorbing study. There is so little space for the
exploration of so many highly original, and often provocative, insights.
Frequently one itches to engage the author in debate, and to develop fully
the lines of inquiry that he deftly outlines. One hopes that this
provocation will help draw forth the protracted scholarly attention that the
subject of homosexuality in modern Portuguese literature merits.
Mark Sabine, «The Twilight World of the Lusosexual: Exploring
Sexuality in Portuguese-Language Literatures»,
Journal of Romance Studies, Volume 5, Number 2, London, 2005.
Eduardo Pitta trouxe à poesia dos anos 70 uma força nova, quando surgiu com
o primeiro livro Sílaba a Sílaba (1974). Somaram-se poemas
desafiantes e de igual intensidade nos dois grandes territórios do poeta: o
do corpo, que assume na plenitude os signos homoeróticos - «E só
agora / tu e eu sabemos / da urgência do / amor»; e o de apátrida ou
exilado, no sentido de ser um homem de duas pátrias apartadas: Moçambique,
onde nasceu na então Lourenço Marques, e Portugal para onde veio em 1975.
«Eu diria dos apátridas que somos / daquela pátria que nos sobra.» São
versos que integram Poesia Escolhida,
de Eduardo Pitta, edição do Círculo de Leitores, em que o poeta alinhou
poemas feitos entre 1971 e 1996. Se já na antologia pessoal Marcas de
Água (1999) podemos ter uma noção ampla do trabalho poético de Eduardo
Pitta, agora que passam mais de três décadas de uma criatividade repartida
[...] pela poesia, ficção, ensaio e crítica literária, o volume
Poesia Escolhida alarga não
apenas esse conhecimento como permite uma avaliação porventura mais atenta
do conteúdo, da imagística, da estrutura e dos ritmos físico e psicológico
do autor. Ao coligir poemas de 25 anos de escrita e de obras há muito
esgotadas, e mesmo sabendo-se que a escolha está longe de abarcar toda a
produção do escritor nesse período, Eduardo Pitta voltou a propor «a
linguagem da desordem», expressão que deu título ao seu livro de 1983 [...]
no qual há «alguns mortos de intervalo», mas a dizer-nos, igualmente, que
«As cidades fazem-se todos os dias.» Poeta conciso, poeta da síntese que
sabe a pulsão eficaz da metáfora e o longo alcance da brevidade, do
instante, é na comunicação dos contrastes, no «grito gritado ao contrário»,
no discurso tenso da memória, da errância, do amor e do desejo que Eduardo
Pitta demanda o jogo de espelhos. Um jogo cruento pela energia do olhar e da
palavra, por uma ácida lucidez que se cumpre no domínio absoluto da
transfiguração: «Temos que baste: a pátria à janela / e a vontade na cama»;
ou ainda: «Quando te encontro, / girassol do meio-dia, / baloiça-te na voz /
um desejo de tâmaras / Inclino-me e soergo-te, / transpiras e dás fruto.»
Eduardo Pitta, esquivo à retórica, tem uma oficina poética sólida, com o
poder sugestivo e cáustico de um Baudelaire, com a depuração de Yeats.
Sempre contida, na poesia do autor de obras como Um Cão de Angústia
Progride plasma-se, ao mesmo tempo, e num estilo elíptico, o fulgor e o
silêncio, a lâmina e a alma, a sedução e a ironia. Um ritmo que encontramos,
também, na sua arte de crítico e de ensaísta.
Maria Augusta Silva, Diário de Notícias, Lisboa, 2005.
Eduardo Pitta teve o mérito de iniciar, entre nós, este debate, e a um nível
de inquestionável qualidade, ao mesmo tempo que passou a ser percebido como
o introdutor, mais ou menos «oficial», dos estudos gays no nosso país. [...]
Ora a mais importante de tais é a de Eduardo Pitta, que, com o seu livro Fractura. A Condição Homossexual
na Literatura Portuguesa Contemporânea
(2003), inaugurou, pelo menos de modo reconhecido publicamente, a divulgação
dos estudos GLQ no nosso país. Uma ou outra fragilidade deste texto tem
necessariamente que ser menorizada ante o valor que ela representa, e não
apenas simbolicamente. Poeta e ficcionista, o autor abre agora um debate que
estava para cair — e apodrecer — de maduro
nos meios intelectuais, críticos e universitários.
António Fernando Cascais, «Apresentação» e «Um nome que
seja seu: Dos estudos gays e lésbicos à teoria queer»,
Indisciplinar a Teoria. Estudos Gays, Lésbicos e
Queer, Lisboa: Fenda, 2004.
Na crítica em volume, este é o terceiro livro de
Eduardo Pitta, depois de Comenda de Fogo
(2002) e Fractura. A Condição Homossexual
na Literatura Portuguesa Contemporânea
(2003). Ao seleccionar os textos para
Comenda de Fogo, Eduardo Pitta
preocupou-se em escolher os mais breves, todos publicados na LER,
enquanto que para Metal Fundente
escolheu os mais longos, com publicação dispersa, o que torna as obras
complementares. Há, portanto, afinidades e diferenças entre os dois volumes.
Liminarmente, a crítica de Eduardo Pitta possibilita o mapeamento dos
seus interesses não só enquanto crítico, mas também enquanto poeta, o que
não é de somenos para um escritor com a sua obra [...]
Metal Fundente persegue um propósito
definido: os ensaios [...] são dedicados individualmente a autores
consagrados, a maioria do século XX, quase todos poetas [...]
Não se estranhe o contínuo diálogo entre a biografia e a obra do
autor, base de análise deste crítico: o perfil biográfico é inseparável da
recepção e leitura da sua obra [...] Conhecendo a poesia de Pitta,
facilmente se contextualiza o que acima se afirma: «Eu diria dos apátridas
que somos / daquela pátria que nos sobra» [...] Mais: a questão do exílio é
transversal a toda a poesia de Pitta, pelo que este é simplesmente o exemplo
mais directo e evidente. Facilmente se compreende a perspectiva do exílio
com o avançar da leitura do ensaio, que serve para Pitta referir a educação
de Kavafis e Pessoa, com desfechos opostos nos dois poetas [...] O segundo
motivo por que é central este ensaio tem que ver com o corpo, na perspectiva
acima assumida: o corpo entendido na sua totalidade, físico, carnal,
desejador e criador de desejo, ferido, intocado, perfeito ou imperfeito,
etc. Ele serve de ponte para o crítico falar da assunção da identidade
sexual de Kavafis e da máscara envergada por Pessoa. Não negligenciemos que
este é outro ponto central na obra de Eduardo Pitta (corpo, identidade,
máscara); «alguma razão haverá», afirma o autor na sua página de acolhimento
na web.
Paulo Simões Mendes, Canal de Livros, 2004.
A recepção crítica de Fractura...
[...] é já um «case study». A artilharia crítica tem-se debruçado, com
espantosa tresleitura, sobre três aspectos absolutamente laterais ao texto.
Em primeiro lugar, a crítica à deriva metodológica da própria área de
estudos da teoria «queer», de que Eduardo Pitta utiliza o protocolo e o
sistema [...] Um segundo aspecto prende-se com a leitura «moral» de
determinados autores [...] A leitura «queer» surge, portanto, como fractura
[...] Esta parece-me ser a terceira questão: a definição prévia, o
denominador mínimo comum, do que os vários lados da barricada podem entender
como o objecto dos estudos «queer» [...] Pitta descobre vários motivos,
muitos dos quais impressionantes pela sua omnipresença no imaginário
português [...] A identificação de supressões que este livro pratica é
necessária e revivificadora, apesar das idiossincrasias dos estudos «gay»
que podem ferir a sensibilidade (ou o rigorismo teórico) de alguns leitores
[...] Discorde-se do objecto ou não, a existência deste ensaio é desde já um
marco cultural.
Pedro Sena-Lino, supl. Mil Folhas, Público, Lisboa, 2004.
Em Portugal, os «Queer Studies» são quase inexistentes. Um livro de Eduardo
Pitta, Fractura.... [...] tem,
neste domínio, um papel pioneiro, entre nós. Esse é o seu mérito [...]
Estranha «queer reading» esta, que se exaspera com as subtilezas dos textos,
em vez de procurar precisamente nos caminhos desviados e produtores de
efeitos uma escrita atravessada por um desejo e por relações de sentido que
exigem uma subtil hermenêutica [...] É fácil perceber a razão destes
equívocos: Eduardo Pitta está mais interessado em atribuir «identidades» do
que em encontrar formas de escrita. Deste modo, ele não podia estar mais
refém da categorização normativa do discurso heterossexual.
António Guerreiro, caderno Actual, Expresso, Lisboa, 2004.
Segundo o Dicionário Latim Português (Porto Editora), o significado
de persona, ae é máscara. [...] Se máscara é a «form of disguise
usually worn over the face to disguise the identity of the wearer» (The
Wordsworth Dictionary of Beliefs and Religions), é também personagem e,
finalmente, pessoa. Considerações a propósito de
Persona, livro de ficção de Eduardo Pitta [...] A minha
sugestão é que a orientação moral começa no título [...] e termina na
pessoa, i.e., em Afonso, protagonista de Pesadelo. Note-se que
escrevi protagonista de Pesadelo e não dos dois primeiros contos,
porque só no último é que a personagem atinge plenamente, na minha opinião,
a independência de espírito que o eleva à categoria de «pessoa», aqui
entendida como um distanciamento crítico em relação aos elementos culturais
necessários à construção do «Eu». O movimento progressivo começa com o aviso
de Eduardo Pitta: «Qualquer semelhança com pessoas e factos é mera
coincidência». A afirmação do autor resulta não só na anulação de
hipotéticas identidades civis, enquadradas num espaço e num tempo finamente
definidos, mas também na atribuição de características e comportamentos a um
conjunto alargado de indivíduos [...] A identidade, intimamente associada à
sexualidade, é assim problematizada [...] O resultado é uma visão
desencantada. Após o sonho de uma irmandade masculina, baseada na identidade
sexual e representada pelo hedonismo pós-stonewalliano, Afonso constatará
que nem todas as características humanas são passíveis de transformação
através de uma hipotética revolução sexual. A passagem é antológica: «Juntos
[Lucas e Mateus], odiaram o frio e as bichas enconadas do Monte Carlo,
um santuário daqueles tempos de segregação. 'Estão divididas em três
grupos, o da TAP, o da ópera e o do teatro experimental. Quem não é da
aviação, não gosta da Callas ou não vai a Paris ver Ionesco, não existe. As
não-alinhadas atacam no Monumental, mas a foleirice é a mesma.'
[...] Os versos de Eduardo Pitta apontam para um dos temas mais importantes
da sua poesia e, ouso afirmá-lo, da sua ficção: o exílio. Afonso, um
português [...] adiciona, à sua nacionalidade imanentemente problemática
[...] a homossexualidade, uma outra forma de consciência da diferença, neste
caso não racial, mas sexual.
António Jorge Ramalho, Canal de Livros, 2004.
Li um muito interessante ensaio de Eduardo Pitta que saiu recentemente em
opúsculo intitulado Fractura. A Condição
Homossexual na Literatura Portuguesa Contemporânea. O autor
identifica os momentos e os autores, homossexuais ou não, em que a
homossexualidade surge na literatura portuguesa. E são bastantes [...]
Escrito numa linguagem mais tensa do que é habitual num ensaio literário,
formulando uma tese inicial que depois fica diluída no texto (sobre a
dificuldade de aplicar ao caso português o padrão da literatura gay
americana), o ensaio enuncia as relações do relato homossexual na literatura
com uma «ética da desobediência», a pretexto de Cesariny [...] Vale a pena
ler.
José Pacheco Pereira, Abrupto, 2003.
Eduardo Pitta [...] estreou-se na ficção com as três narrativas de
Persona [...] Embora também
estivesse presente na obra poética do autor, nessas histórias o universo
homossexual era explicitamente tematizado. Agora, Eduardo Pitta alinha
algumas ideias sobre esse domínio em Fractura...
[...] Esta é ainda uma área de estudos nova entre nós [...]
Fractura... é escrito no estilo
habitual de Pitta: uma elegantíssima sobriedade, um tom snob e por
vezes verrinoso, alguns raciocínios elípticos e justíssimos. Mas ficam por
resolver algumas questões centrais: a categoria «gay» [...] a homogeneidade
de uma «cultura homossexual» [...] a linha de demarcação entre emancipação e
gueto; as estratégias conflituantes da integração e da transgressão; a
diferença entre literatura gay e literatura homossexual [...] Aberto o
caminho, estas tarefas ficam para próximos trabalhos, do próprio Pitta ou de
terceiros.
Pedro Mexia, Diário de Notícias, Lisboa, 2003.
Ocorre-me que o poeta e crítico português Eduardo Pitta, não sendo
universitário, é um especialista: escreve sobre a poesia portuguesa
contemporânea, que acompanha e lê exaustivamente, mantendo há anos a única
coluna especializada de crítica de poesia da nossa imprensa periódica.
Apenas um exemplo, a mostrar que a crítica exige preparação, treino,
competência específica, nada disto atributo garantido dos universitários,
porque simplesmente se exige de todos os críticos e em todos está
permanentemente à prova.
Abel Barros Baptista, rev. Inimigo Rumor, n.º 13, 2002.
Comenda de Fogo reúne a crítica
que Eduardo Pitta exerce nesta mesma revista, sob o título genérico — extraído de um verso de Valéry
— O Som & o Sentido [...]
Ora, as vantagens que uma tal tribuna poética pode ter, em termos de
divulgação para o grande público, são aproveitadas com sageza por Pitta
[...] Num segundo nível de leitura, os textos de Pitta encerram posições
quase doutrinais em termos de poética e, aqui e ali, revelam o substracto de
algumas lutas geracionais históricas. Pelo meio remoques pessoais com
destinatário, envoltos numa linguagem que não hostiliza o leitor neófito
[...] Assim, nota-se o à-vontade de Pitta na literatura anglo-saxónica ou
moçambicana [...] por contraposição à cultura alemã, por exemplo. Entre os
temas, é claro que a questão homoerótica é tratada mais
circunstanciadamente, mas sem heterofobias.
João Tiago Proença, coluna Bloco de Notas, rev. LER, n.º 56,
Lisboa, 2002.
Vêm estas considerações a propósito da recente publicação de
Comenda de Fogo, do também poeta
Eduardo Pitta, reconhecido por um despojado movimento linguístico não
ornamental, por vezes quase epigramático, elíptico, descarnado, ácido,
nítido, tão vagaroso como veloz na deriva fugaz do corpo [...] Para além da
sede de leitura que precede a análise da especificidade da obra poética, o
autor [...] detém-se — como crítico documentado, minucioso até à
exaustão, nos seus pressupostos tão ou mais enumerativos quanto analíticos —, não só nos poetas canonizados, como nos novos e novíssimos. E é hábil,
contundente e organizado no manuseamento da palavra e na criação de um metadiscurso onde o leitor se pode encontrar [...] Eduardo Pitta está atento
aos poetas que escrevem numa linha de continuidade histórica [...] fazendo
sentir que a literatura nem sempre está desfasada de uma realidade
sociocultural. O discurso crítico de Eduardo Pitta dir-se-ia também [...]
móvel, fluído, sintético e ecléctico na reconstituição da trajectória do
autor.
Ana Marques Gastão, Diário de Notícias, Lisboa, 2002.
Eduardo Pitta coligiu os seus artigos publicados na revista LER desde 1994
numa obra de referência para a compreensão da poesia recente publicada em
Portugal. Comenda de Fogo [...]
reúne 26 artigos do poeta, aqui assumidamente na sua função de crítico, numa
primeira parte dedicada à publicação (que mantém o mesmo título «O Som &
o Sentido» que encontramos na revista), e outros 4, de cariz mais
reflexivo e longo sob o título «Poetas: memória e cânone». São mais de cem
nomes, maioritariamente portugueses, entre poetas consagrados e jovens
poetas, os analisados sob a pena de Eduardo Pitta [...] o autor não cai na
crítica fácil ou superficial, nem tão pouco se esconde numa análise
hermeneuticamente objectiva. Pelo contrário, Eduardo Pitta assume a sua
própria construção da história da poesia portuguesa da última década [...] O
léxico utilizado é por vezes denso e codificado pelo que é igualmente
necessário que se conheça o autor para entrar no seu universo teórico [...]
Um livro a que se regressa sempre.
Andreia Brites, Canal de Livros, 2002.
O livro Persona [...] foi louvado
como um acto corajoso [...] Falar em Portugal de uma «escrita gay» é puro
folclore [...] a obra é boa ou má. E Persona,
enquanto texto literário, é insólito, original, de grande qualidade
literária, onde o tema das diferenças vai muito além do meramente sexual.
Constitui-se de facto como um pequeno romance na medida em que cada um dos
contos tem por herói a personagem de Afonso, apanhada em três momentos-chave
da sua vida: aos 12, aos 18 e aos 22 anos. A cada idade corresponde a
narrativa de uma forma de iniciação. Três etapas de um caminho em direcção à
maturidade marcadas pelos encontros, pelos espaços: a escola, uma viagem ao
deserto, a vida de guerreiro. Trata-se de um percurso de crescimento e,
apesar da brevidade, os episódios revelam-no como a versão moderna de uma
educação sentimental. O herói move-se na alta-burguesia, retrata-lhe os
tiques e os podres, o discurso tanto mais elegante quanto escabroso,
reproduz a snobeira de um distanciamento muito «british» [...] Não percam.
Helena Barbas, caderno Cartaz, Expresso, Lisboa, 2002.
Eduardo Pitta [...] cuja obra relativamente escassa traduz a sedução por um
universo fortemente erotizado em que as memórias afectivas não se acompanham
por qualquer fluida nostalgia, mas engendram, pelo contrário, flashes
onde cintila a presença dos corpos e dos olhares subitamente vivos na
deflagração dos instantes e na sua cristalização á superfície do poema. O
resultado conduz a uma concisão epigramática repartida por motivos
geralmente relacionados com o desejo homossexual e com a sua tensão,
geradora de alguma asfixia ao nível das convenções sociais.
Fernando Pinto do Amaral, História da
Literatura Portuguesa, Vol. 7, Óscar Lopes e Maria de Fátima Marinho (Eds.), Lisboa: Alfa, 2002.
Designado pelo autor como «contos morais»,
Persona constitui o primeiro texto de ficção em prosa de
Eduardo Pitta, poeta sobejamente conhecido e crítico literário da revista
LER. Pensamos ter havido por parte do autor o estabelecimento de uma
relação intencional, de carácter semântico, entre o título do livro e a
qualificação dos contos [...] Assim, se bem interpretamos, Eduardo Pitta
provoca-se a si próprio enquanto autor-narrador, evidenciando uma realidade
social a que não permanece alheio, e provoca o leitor a deixar cair a
«máscara» da normalidade social e a aceitar o conteúdo explicitamente
homossexual dos contos [...] De uma linguagem crua, subvertora da
«normalidade» mas fortemente realista, dotado de um léxico que combina
tiques da alta-burguesia colonial com expressões do machismo militar,
enquadrando uma espécie de iniciação social e sexual de Afonso,
Persona vem assumir-se, no actual
panorama literário nacional, como uma forma de triunfo do recalcado, ou
seja, como uma libertação sem pudor moral da vertente gay da literatura
[...] É, evidentemente, por estes motivos, um livro para a História [...]
Eduardo Pitta veio finalmente libertar o «tio Ângelo» 57 anos depois da
publicação de Mau Tempo no Canal [...] Finalmente, este livro de
Eduardo Pitta, de um modo explícito a partir do conto «Pesadelo» [...] vem
também trazer uma vertente nova que faltava à literatura portuguesa sobre a
Guerra Colonial.
Miguel Real, Jornal de Letras, Lisboa, 2001.
Isto a propósito da primeira ficção do poeta e ensaísta Eduardo Pitta, que
aparece, no espaço de produção literária portuguesa, como diferente e ousada
[...] Diferente porque homossexual. E a narrativa da vivência homossexual
institui-se como marca de diferença, não só para dar voz a experiências em
termos que são novidade na ficção portuguesa (na poesia, é diferente), como
também pelo risco dos factos narrados serem lidos como autobiográficos [...]
É a esta luz que se pode entender o título do livro,
Persona [...] Os contos constituem-se como uma espécie
de romance de formação que se detém em momentos significativos do percurso
da vida de Afonso e o confronto com as instituições (a Escola, o Exército)
ou a vivência da libertação que o espaço do deserto promove face à opressão
totalitária do apartheid [...] Um Requiem sem nostalgia.
Linda Santos Costa, rev. (livros), n.º 20, Lisboa, 2001.
I want to insist on this point, so I make it at the very start so we can get
on with other things: like the excellence, the sharpness and the interest of
Eduardo Pitta's impressive first fiction, Persona. But Pitta's stories
concern men who fancy men, their networks, their meetings, their context, so
they are presented as «gay» fiction and we are invited to consider a «gay» canon. This is said to be of historic interest in
Portugal [...] What Pitta
does, with economy and power, is exactly that: although we might prefer a
more polite version, since his colonial soldiers have a lifestyle out of
social columns and are not the petty thieves and turncoats of Genet's
fantasy. You have to be Afonso for the duration, suspected at school in
Mozambique of being a queer (and exploited by the doctor inquisitor who
fancies a blowjob); finding possibilities in the unlikely context of the
Kalahari; ending up not quite a political prisoner during the colonial wars,
a soldier whose sexuality makes him either a security risk or just like all
the other bichas in the barracks [...] This means that Pitta can write
about queers, and men who fancy men, in a failing colony, without tumbling
into the nonsense of associating homosexuality with some sort of imperial
decadence (it was queers like Cecil Rhodes who built the British Empire, and
no doubt there are queers like Cecil Rhodes waiting to be discovered among
the founders of the Portuguese....). By transcending the simple subject of «being
gay», Pitta finds his own particular subject and he's not answerable for any
programmatic reading from some homophobic ignoramus [...]
However, Pitta's Afonso is a reader. He goes out to buy John Rechy's book
Numbers, recommends to his rugby-playing buddy Rechy's earlier book
City of
Night. Both approve the sense of ritual and choreography in Rechy's
descriptions of the sexual hunt, are interested by the notion that a
closeted homosexual is like a black who straightens his hair and tries to
pass: which seems a little perverse [...] And I admire these stories of
Eduardo Pitta, because they are about snobbery, travelling, the odd tensions
of a failing colony, the end of an empire; and yet they are far more than
their subject. They are also about the odd knowingness that comes to gay men
quite young, because we can see the world has to be calculated into shape.
But they are not propaganda or pornography or sociology or anthropology or
history. They are fiction, good fiction, and welcome in themselves.
Michael Pye,
Ciberkiosk, 2001.
Eduardo Pitta, poeta e crítico assíduo de poesia, acaba de publicar o seu
primeiro livro de ficção. Para quem teve oportunidade de ler a sua recente
antologia poética, Marcas de Água,
digamos que o encontro com este livro de contos regista uma deslocação
assinalável da sua escrita. Das Marcas passamos agora para a esfera
da Persona, título do livro em
análise. Tal deslocação tem um manifesto interesse crítico, precisamente
porque implicou a narrativização do sujeito e, com ela, uma maior
legibilidade das Marcas que os livros anteriores exibiam nos
interstícios dos versos. Com esta mutação, a escrita gay encontra em
Portugal uma voz audível como não tinha tido até aqui. Aliás, poder-se-ia
ver neste livro o sintoma da emergência mais ou menos consistente de uma
cultura pública gay entre nós [...] A primeira impressão que se tem ao ler
Persona é a de uma reactivação de
experiências de leitura de algum património «moral» do séc. XVIII, até
porque há entre eles marcas de género, digamos assim: ritmo acelerado,
narrador autoritário, pathos autobiográfico e sobredeterminação da
pulsão erótica [...] Assim, o dicionário gay tem momentos deveras virtuosos,
como naquela «mamada digna de um tory», antes de «o comer à canzana, com
muito cuspo e nenhuma benevolência». Do mesmo modo, a viagem de ida e volta
facilita a celebração da escrita gay, seja ela de Joe Orton ou de John Rechy
[...] a sua pátria é sobretudo uma pátria sexual. É esta que imprime as
Marcas mais profundas à letra da sua Persona.
Fernando Matos Oliveira, Ciberkiosk, 2001, e rev.
Colóquio-Letras, n.º 161-162, Lisboa, 2002.
Acabado de surgir nas estantes das livrarias, o primeiro livro de ficção de
Eduardo Pitta surpreende pela forma, inédita em Portugal, de abordar a
chamada temática gay. Persona
compõe-se de três histórias, contos «morais» segundo o próprio autor, em que
a complicada teia das relações humanas se constrói sobre os alicerces de uma
homossexualidade assumida e afirmada pelo protagonista. Em Marilyn, a
história que abre o livro, assistimos ao sereno processo de assumpção e
descoberta da sexualidade de Afonso, adolescente, em contraste doloroso com
a veemente repressão social desempenhada [...] pela instituição escolar.
[...] Kalahari, nome de deserto e título da segunda história [...] é
o cenário de uma viagem de carro que se desdobra em percurso através da
solidão momentaneamente quebrada [...] Em Pesadelo [...] deparamo-nos
com [um] retrato bem construído do ambiente militar em Moçambique cerca de
dois anos antes da revolução dos cravos [...] corte certeiro em tudo o que a
caserna enquanto comunidade pode esconder [...].
Sara Figueiredo Costa, Canal de Livros, 2001.
As três histórias deste Persona
(no duplo sentido de máscara e pessoa) são um percurso de crescimento e
aprendizagem de uma personagem Afonso, espécie de alter-ego do autor. O
Afonso adolescente, desportista e ciente e informado da sua condição
homossexual [...] O Afonso de dezoito anos, culto, aventureiro e apaixonado
[...] O Afonso do serviço militar obrigatório, em tempos de guerra [...] já
muito perto do 25 de Abril de 1974.
Carlos Bessa, Expresso das Nove, Ponta Delgada, 2001.
Três narrativas não longas, dois contos e uma novela: Marilyn,
Kalahari e Pesadelo, primeira incursão do poeta Eduardo Pitta no
terreno da ficção [...] Uma abordagem crua e desassombrada de um lado oculto
das guerras, neste caso, da guerra colonial e do apartheid sul-africano;
obra na qual se cumpre uma função crítica perante cenários vincadamente
marcados pelo arbítrio e abusos de poder [...] A homossexualidade surge em
Persona de uma forma singular nas
letras portuguesas (e, sobretudo, na literatura pós-colonial), ao articular,
contundentemente, um dado universo do colonialismo moçambicano com uma
identidade gay [...] Eduardo Pitta, ele mesmo nos diz, «subverte as
armadilhas da nostalgia amorosa, sexual e colonial» e espelha a decadência
do Império sem qualquer espécie de retórica [...] Narrador comum às três
narrativas: Afonso. Um olhar que perde a inocência e se faz largo sobre o
cinismo político e social.
Maria Augusta Silva, Diário de Notícias, Lisboa, 2001.
Persona. É nome de livro [...]
Três prosas de diferente extensão, confundindo-se numa, numa zona,
formando um universo. O enigma poético filtra a homossexualidade latente,
factual, ressuscitando a memória dos pequenos infernos, evocando África,
mais exactamente os últimos momentos de Moçambique colonial e Lourenço
Marques branco. O seu autor é poeta [...] de nome Eduardo Pitta. Desde
então, o poeta sabe a cifra da escrita, rara e original; porém, nem
sempre quer ajudar a decifrá-la. Claro, leia
Persona quem quiser e quem puder, mas não se fique pelo meio
quem gostar pelo menos de uma página: creio que o delgado livro,
independentemente de todos os possíveis juízos de valores, pode tornar-se,
num dia próximo, um objecto de culto.
Jorge Listopad, Jornal de Letras, Lisboa, 2001.
Algumas semelhanças e muitas diferenças encontramos em
Persona, a estreia de Eduardo Pitta na ficção [...] O
título e esta nota introdutória têm um grande grau de ironia, uma vez que a
máscara (persona) nestas narrativas é a própria autobiografia, e que a
semelhança com pessoas e factos é intencional e cuidadosamente arquitectada
[...] um documento, em grande medida surpreendente, sobre as relações de
poder e a política de costumes em finais do Império.
Persona é, assumidamente, uma narrativa de aprendizagem
sexual, de feição homoerótica, nomeadamente no confronto com as iniquidades
ou as hipocrisias de instituições como a Escola e o Exército. São histórias
da vida privada que também tocam profundamente a vida pública, tornando
estes contos tão políticos como morais. Tal como na sua poesia [...] Pitta
cultiva uma escrita sóbria, irrepreensível, e denota a influência de um meio
anglo-saxóico e culto como aquele que existia nas elites moçambicanas [...]
sem nostalgia nem demagogia [...] Persona
é um livro de alguma crueza mas de leitura agradável, e sobretudo de extrema
ironia e crueldade selectiva.
Pedro Mexia, DNA, Lisboa, 2001.
Este o primeiro aspecto que gostaria de referir: a forma implacável como o
autor lidou agora com textos antigos, lucidamente recorrendo àquilo a que
Eugénio Lisboa, no prefácio, chama “um tremor bem controlado”. Esse tremor
controlado percorre a poesia de Eduardo Pitta, que assim se estrutura na
tensão entre o lirismo e a sua desdramatização, entre a ternura e a ironia,
entre o sublime e o contingente [...] Sobressaem neste livro grandes áreas
temáticas: o amor, o erotismo, a guerra, a solidão, temas filtrados e
depurados por uma lente rigorosíssima de ironia e contenção [...] O inferno,
com uma tão larga tradição na literatura ocidental de raiz judaico-cristã,
fundamental para a famosa síntese dos contrários da poesia de William Blake
[...] é aqui revisto, para exprimir, uma vez mais, a tensão entre o
pensado e o espontâneo, entre o sistematizado e o trivializado [...] na
poesia de Pitta, esta condição de estrangeiro, de apátrida, que se revela, a
nível das estruturas discursivas, na frequente suspensão do eu lírico e sua
substituição pela presença de várias vozes, advém de o sujeito habitar
vários espaços e identidades sem, de facto, pertencer a nenhum.
Ana Luísa Amaral, rev. Colóquio-Letras, n.º 155-156, Lisboa,
2000.
Na poesia de Eduardo Pitta configura-se, então, um deliberado exercício de
aprendizagem de economia discursiva através da qual se visa inverter o
processo de desgaste das palavras. Por um lado, constrói-se um discurso
poético rigoroso, tenso, em que os materiais são dispostos de forma muito
contida, com base num reduzido conjunto de recursos verbais. Por outro lado,
o texto poético é deixado como que em aberto, podendo despoletar um sentido
dúplice, potencialmente outro [...] Entre as estratégias discursivas mais
relevantes da poesia de Eduardo Pitta, encontramos as estruturas elípticas,
afirmando-se e desenvolvendo-se as possibilidades de sentido a partir
desses espaços brancos abertos no tecido verbal [...] A brevidade, e também
a intensidade, da poesia de Eduardo Pitta, encontra um paralelo semântico na
imagem do relâmpago.
José Ricardo Nunes,
Ciberkiosk, 1999, e rev. LER, n.º 48, Lisboa, 2000.
Um dos desígnios mais marcantes desta poesia (e esta antologia pessoal dá
bem a ideia) é a sua inequívoca pulsão para criar um espaço expressivo em
que a linguagem actua de forma contida, a ocorrer desde os primeiros livros.
As heranças simultâneas que escolhe regem-se não pela vivência
exteriorizada, pelo contrário, o que predomina na dicção deste poeta é a
procura de um auto-conhecimento interrogativo, a reflexão erótica, o atrito
dos encontros e das perdas, e a apreensão do mundo. A presença constante do
mundo anglo-saxónico imprime na sua poesia um selo dialógico que irá
acentuar cadencialmente com inúmeros autores de sua eleição. O diálogo
estabelecido não dramatiza a sua condição, enfrenta a memória e a sua deriva
no mundo com corajosa lucidez, em consonância com a apurada percepção das
coisas.
Jorge Henrique Bastos, caderno Cartaz, Expresso, Lisboa, 1999.
Ferida de realidade, a poesia de Eduardo Pitta, agora coligida num só volume
[...] dá testemunho de uma voz estrídula, pulsional, desabrida, atenta a um
sentido sobressaltado do ritmo e das mudanças de respiração [...] O
entendimento do mundo não passa, para o poeta, pela simples compreensão da
linguagem, breve, acutilante, alusiva, hostil à incontinência discursiva,
mas pela decifração de uma interioridade obscura, perturbadora, solitária.
Ana Marques Gastão, Diário de Notícias, Lisboa, 1999.
Por isso não há, em Marcas de Água, efusão sentimental mas sobriedade
elíptica. Aí faz-se, em surdina, a história de uma vida.
Carlos Bessa, Expresso das Nove, Ponta Delgada, 1999.
Em Marcas de Água, e de um modo que nenhum dos livros anteriores poderiam
por si só proporcionar, o leitor é encaminhado através de uma experiência do
instante, ou mais exactamente do paradoxo do instante [...] E os poemas
sucedem-se como se o tempo não pudesse medir-se senão pela súbita
fosforescência que ilumina e fixa certos instantes, quando uma espécie de
incêndio dos sentidos consegue unir numa liga indissolúvel as circunstâncias
do acontecer e as palavras do poema [...] Julgo que esta tensão, que
constitui o vector fundamental da poesia de Eduardo Pitta, surge mais
evidente agora, em Marcas de Água. Se há sempre imensa gente nestes versos,
isso não significa que eles cheguem a ser abertamente narrativos ou que
assumam uma função representativa [...] A retracção discursiva, a aguda
nitidez destes poemas tem qualquer coisa de ferida insanável, de dorida
resistência. E se a intensa sensualidade que os atravessa nada tem que ver
com a libido velada da melancolia, ela tem, no entanto, um reverso de
ausência e desencontro que é, no fundo, o cerne do que aqui chamei errância.
Rosa Maria Martelo, rev. O Escritor,
n.º 13-14, Lisboa, 1999.
Mas, falando de riscos, toda a verdadeira poesia é sempre um risco: e entre
o risco de dizer de menos e o de dizer de mais, apostaria no primeiro. Por
isso, os defensores (não irónicos) da brevidade sustentariam que esta serve
particularmente bem a poesia de Eduardo Pitta, que já apelidei de forte,
brusca e intensa, ao que tive também a oportunidade de acrescentar que se
alimenta de altas temperaturas. Para um discurso poético deste cariz [...] a
compactação dele entre as baias apertadas de uma dimensão avara multiplica
os efeitos, a intensidade e a temperatura [...] Poeta exigente e de ouvido
tirânico, Eduardo Pitta procede por subtracção, por acreditar que esta é
produtora privilegiada de vigor e durabilidade [...] De claridades e
obscuridades violentamente contrastantes, em disparos breves e ácidos, se
compõe, também, a poesia do autor de Marcas de Água [...] Quando Eduardo
Pitta, num verso esplendoroso e cheio de fogo, nos fala da «cidade
incendiada pelo olhar desprevenido», atribuindo, ousadamente, ao olhar
desprevenido a causa profunda do incêndio da cidade, está, no plano da
metáfora, a correr um risco da mesma natureza — embora não da mesma
dimensão... — do que correu quem se lembrou de imaginar que massa e energia
se equivalem.
Eugénio Lisboa, Jornal de Letras, Lisboa, 1999.
A poesia de Eduardo Pitta, agora coligida em Marcas de Água, aparece
claramente como das mais significativas, embora mais discretas, dos últimos
vinte e cinco anos [...] Pitta é de uma notável frieza no modo como
inscreve, como se fossem lápides, as palavras de um discurso assumidamente
autobiográfico, mas que se resguarda de qualquer confessionalismo excessivo.
Na verdade, se muitas das influências de Pitta são anglo-saxónicas, o autor
recusa o lado mais evidentemente quotidiano dessa matriz, e dela retira
apenas uma economia verbal que se furta à palavrosa tradição latina [...] A
poesia de Pitta retrata com grande vigor uma vivência homoerótica, mas nunca
envereda pelo didactismo gay ou pelo “transgressivo” previsível [...] Há um
duplo nomadismo nesta obra: o nomadismo do “apátrida” e o nomadismo da
demanda erótica, marcada pelo arbítrio e por uma violência que se joga
paradoxalmente entre a afirmação do corpo e um opressivo mal de vivre.
Pedro Mexia, DNA, Lisboa, 1999.
Estamos, assim, perante uma poesia que atinge a sua vocação mais singular ao
voltar-se para sensações ou emoções fortes, intensas, próximas dos extremos
ou das altas temperaturas [...] são palavras capazes de queimar como o fogo
e o gelo, imagens que surgem na «iminência do desastre» e se coagulam numa
violência verbal que atribui ao vento uma doçura de lâmina ou pode mesmo
descer à realidade mais crua do quotidiano [...] Também o domínio amoroso —
absolutamente essencial em Pitta — aparece contaminado pela mesma carga
expressiva, pela mesma intensidade. Quando vemos o rosto de alguém definido
como «um mapa / crivado de cidades saqueadas», compreendemos até que ponto
o erotismo corresponde aqui, em maior ou menor grau, a um território de
sedução cuja febre desencandeia um frenesi envolvendo por vezes uma
assinalável dose de violência [...] De facto, embora Pitta seja um poeta
português e se tenha afastado da realidade moçambicana das últimas décadas,
subsiste na sua poesia a presença nostálgica [...] de uma «terra / intacta e
pura» já perdida.
Fernando Pinto do Amaral, supl. Leituras, Público, Lisboa, 1999.
Além de poeta, ensaísta e crítico arguto, sensível, minuciosa e
perversamente bem documentado, Eduardo Pitta recorta, no território
escorregadio das nossas letras, um perfil singular e forte, de fulgores
breves, nítidos, bruscos e decididos que lhe dão uma identidade particular e
inconfundível. Desde o primeiro livro [...] que a sua voz se nos apresentou
já feita e segura, a convir-nos um discurso inquietante, sensual,
ocasionalmente ameaçador ou à beira do quase sinistro, solar e voluptuoso,
mas incorporando, com igual apetência, o nocturno, o violento e o quase
selvagem [...] Poeta dos mais notáveis de entre os que em Moçambique se
fizeram e de lá saíram, embora isto não seja dito com frequência, a marca da
sua poesia não tem contudo muito que ver com a chamada cor local, embora se
lhe possam encontrar algures referências dessa natureza [...] Poesia que
pouco ou nada deve àqueles valores que convencionalmente se perfilam como
poéticos [...] o vigoroso discurso poético de Eduardo Pitta, na sua
arquitectura aparentemente sólida e materialmente sedutora, mina-nos
contudo, de modo insidioso e inelutável, a estabilidade interior e ilustra,
como poucas, a proclamação de Marcel Béalu: «La mission du poète est de
troubler la sécurité.» Quando o seu verso nítido nos explode no rosto [...]
sabemos exactamente do que falava Béalu.
Eugénio Lisboa, pref. de Marcas de Água,
Lisboa: INCM, 1999.
A poesia de Eduardo Pitta preenche o espaço de imaginário que se prende com
o ritual da noite e da morte [...] É uma poesia contida que se espraia numa
perplexidade existencial [...] Por vezes, nesta longilínea travessia pelos
sentimentos e sua dissecação poética, perfila-se o desejo. Surge como que
«aturdido, desapossado, atávico». É uma pulsão, nunca um sentimento. Os
sentimentos, esses, reabrem-se com outro esplendor através da espessura da
memória: «Nenhum de nós passeia impune / pelos retratos: fazem-nos doer / os
recessos da memória» [...] A noite e o thanatos, o onírico e o intraduzível
pulsam nesta poesia com uma força inusitada [...]
Arbítrio é um livro de
desafios, onde se reescreve o posicionamento de todos nós perante várias
interrogações.
Cecília Barreira, rev. Colóquio-Letras, n.º 129-130, Lisboa,
1993.
Arbítrio parece assim corresponder à intenção de tornar perceptível uma
coerência discursiva que poderá ter escapado mesmo ao leitor mais atento
[...] Nesta espécie de remontée dans le temps, da maturidade à adolescência,
que é porém um trajecto reversível, delineia-se, texto a texto, a deriva de
um sujeito que estabelece com a linguagem uma relação fundada numa carência
irredutível, ontológica, mas que paradoxalmente deixa entrever, através
dessa mesma linguagem, uma desbordante energia pulsional que se traduz num
excesso subversor da significação tangível [...] Poesia que surpreende, num
impudor voyeuriste, os tropismos dos corpos que buscam na troca voluptuosa e
fortuita «o instantâneo de um rosto intraduzível» — o rosto inominável que
traz o estigma doloroso da condição humana.
Maria João Reynaud, rev. Limiar, n.º 1, Porto, 1992.
Menos etéreos, apesar de tudo, são os terrenos onde se move a poesia de
Eduardo Pitta [...] já que o seu fulgor expressivo torna os versos
detentores de uma energia e de uma força aglutinadora assinaláveis. A
escrita ganha relevo, neste caso, graças a uma profunda vontade
expressionista, aliás iniludível em títulos como
Olhos Calcinados ou Archote
Glaciar. Neste último se plasma esse brilho das sensações extremas,
violentas e por vezes tão voláteis como a luminosidade de uma imagem olhada
em contraluz: «Imobiliza-se lentamente na claridade / líquida da cidade / e
fosforesce em contraluz.» [...] Estamos, assim, perante uma arte de captar
ambientes físicos marcados por indeléveis memórias afectivas [...] Só para
terminar, acentuo que esta poesia não se fixa apenas aos «inquestionáveis
desígnios do amor» ou, pelo menos, não se lhes fixa euforicamente. Ao
contrário, o eu vem a sentir-se frequentemente asfixiado pela sociedade que
o rodeia [...] asfixia que transmite a estes versos uma tristeza que, sob a
capa de uma atitude cool ou desprendida, acaba por obrigar o sujeito a esse
género de olhar apátrida que deriva do seu exílio e o remete, dia após dia,
ao «circuito / inevitável das coisas ociosas / sem sentido.»
Fernando Pinto do Amaral, O Mosaico Fluido,
Lisboa: Assírio & Alvim, 1991.
Não me lembro, entre os últimos contemporâneos, de outro poeta que consiga
recriar a experiência da sua sexualidade com esta alegre ironia, sem
teorizações de catálogo filosófico.
José Emílio-Nelson, Jornal de Notícias, Porto, 1991.
Eu salientaria
sobretudo a inexistência daquela moleza autocomplacente que torna alguma da
poesia recente num embalo enjoativo. Há uma força declarativa nos versos de
E. P. que não se retrai mesmo em usar o calão mais lapidar. E são
precisamente os poemas lapidares, os que cristalizam numa espécie de
epigramas de pendor moral, a zona mais individualizada e mais conseguida
desta poesia. Como exemplo disso mesmo veja-se este poema: «Temos que baste:
a pátria à janela / e a vontade na cama.» É de facto quanto basta.
Nuno Vidal, O Independente, Lisboa, 1991.
Vem esta reflexão abrir caminho à tentativa de compreendermos a poesia de
Eduardo Pitta, que publicou há pouco tempo uma plaquette [Archote
Glaciar] mas cujo primeiro livro data já de 1974. Não é fácil desvendar o seu
percurso à luz do que mais terá sido importante nos anos 70 [...] Quanto a
nós, falaríamos apenas no regresso a um tom expressionista, servido por uma
violência de linguagem a que não estávamos habituados [...] Oscilando em
geral entre narrações muito elípticas, descrições propositadamente
estilhaçadas e um certo gosto pelo aforismo, estes versos contidos e
incisivos recorrem, no seu movimento pulsátil, a inesperadas associações
verbais ou a metáforas cuja agressividade apanha de surpresa o leitor mais
incauto, processos que têm por pano de fundo um estilo violento e cortante
[...] Convém aliás salientar como esse prazer dos extremos é outra das
peculiaridades de uma escrita que sabe viver dos contrastes e às vezes nos
queima como o próprio gelo [...] A toda essa arte de captação do instante,
do irrepetível augenblick, podemos ligar a importância que para este poeta
assume o olhar [...] Perante uma verdade com um poder tão decisivo, é
forçoso reconhecermos a tragicidade que habita os núcleos temáticos da
poesia de Eduardo Pitta.
Fernando Pinto do Amaral, rev. Colóquio-Letras, n.º 103, Lisboa,
1988.
Por um lado, parece haver, na cena discursiva, uma excessiva afluência de
prevalorizações (temáticas e assumptivas) do real, da realidade e da
experiência pessoal ou nos domínios, antes de outros, da afectividade [...]
Mas diga-se que Pitta continua a praticar uma linguagem fortemente investida
numa metafórica metonímica de grande intensidade denotativa, e numa sintaxe
interessada na contenção e na concisão [...] A sua obra propõe-se, no
entanto, como das mais esclarecidas acerca de tradições ascendentes e de
processos vários para os transformar e superar.
Luís de Miranda Rocha, Diário de Lisboa, Lisboa, 1988.
Eduardo Pitta viveu e vive o dilema de ter duas pátrias e de, ao mesmo
tempo, não ter nenhuma. A este respeito escreveu em 1971 um verso lapidar:
«apátridas que somos / daquela pátria que nos sobra.» Culturalmente
ligado desde a infância à matriz portuguesa, mantém também uma forte relação
com o mundo cultural anglo-saxónico [...] Mas a poesia de Eduardo Pitta
reflecte igualmente outras preocupações, pois não é apenas, na expressão
feliz do poeta galego Ramiro Fonte, «um sentimento da terra perdida».
César Antonio Molina, supl. Libros, El País, Madrid, 1987.
Eduardo Pitta gosta do poema curto, conciso e, muitas vezes, aforístico, o
que, entretanto, não impede que a sua poesia se povoe de uma nebulosidade
sugestiva, apta para a melhor comunicação com o leitor. Nos seus poemas
predomina um erotismo hermético, uma palavra palpitante e sinuosa que faz
dele, deste modo, uma das vozes mais características da nova poesia
portuguesa.
Amador Palacios, rev. Hora de Poesia, n.º 48, Barcelona, 1986.
Mas essa dessatisfação, que é uma coordenada existencial, tende a
transformar-se em característica textual da poesia que nos últimos dez anos
se vem afirmando. Assim ela surge condicionada e contaminada por valores
escriturais contraditórios, como por exemplo quando Eduardo Pitta apela
para a escrita da desordem [...] mas de facto se serve de uma ordenada e
sossegada organização escritural e imagística.
E.M. de Melo e Castro, Diário de Lisboa, Lisboa, 1986.
Cf. Voos da Fénix Crítica, Lisboa: Cosmos, 1995.
Perdido o fascínio do comprometimento, a poesia portuguesa surgida a
partir de 1979-1980 parece conduzir-se em recuo diante do pensamento da sua
própria liberdade [...] Um Cão de Angústia Progride, de Eduardo Pitta, é
talvez o texto que representa exemplarmente esse momento dilemático por que
a poesia portuguesa se busca em liberdade [...] Eduardo Pitta, publicando
A
Linguagem da Desordem onde uma nostalgia vibrátil unifica poemas
deliberadamente saturados de imagens, ou que se atravancam de estruturas
fortuitas em que a pertinência do discurso salta sem cessar de um plano para
outro, raras vezes definindo a causalidade a que se refere.
Manuel Frias Martins, 10 Anos de Poesia em Portugal: 1974-1984, Lisboa: Caminho,
1986.
Na fugacidade do instante e num registo tão económico e rigoroso, uma tão
vasta gama de implicações e harmónicas [...] a capacidade de surpreender o
quotidiano, transfigurando-o em algo que, sem nunca deixar de sê-lo,
cristaliza na realidade única e diversificada que somente ocorre na zona
misteriosa da oficina poética e da imaginação criadora [...] empresta à
economia do texto um fulgor e uma qualidade emblemáticos: dez palavras, uma
dúzia, três, quatro versos, para dizerem um longo arrazoado, tal é a
linguagem definitiva das lápides. Decorrentes, ou concorrentes, uma e a
mesma, eis as qualidades, ou qualidade, que me parecem conferir um timbre de
singular excelência à voz que distingue Eduardo Pitta de outros — por certo
muito estimáveis — valores da poesia portuguesa revelada a partir dos anos
70. O seu fio condutor exibe a força estrita, o traço linear e ácido da
cicatriz indelével: «nenhuma água / para tanta cinza.»
Rui Knopfli, rev. Colóquio-Letras, n.º 89, Lisboa, 1986.
Raiva sem apelo, aguda consciência de ter chegado tarde, de não haver água
que chegue para a desolação das cinzas, de ser intruso ou espectador de um
«tempo rarefeito», há-as, desmedidas, em desamparo total, em
Olhos
Calcinados, de Eduardo Pitta.
Fernando J.B. Martinho, balanço 1983-84, sep. AICL, Lisboa,
1985.
Olhos Calcinados é o quarto título deste poeta que sabe do seu ofício e que
empresta ainda a cada verso um vigor emotivo que toca e deslumbra.
Deslumbramento ainda pela riqueza de cada poema, pelo tratamento da imagem,
pelo poder de síntese. É uma poesia limpa de coisas inúteis. E isto não
abunda.
Álamo Oliveira, A União, Angra do Heroísmo, 1985.
Como aconteceu a muitos outros déracinés semelhantes, o regresso à «pátria»
traduziu-se, neste caso, por uma espécie de exílio particular, em que tudo
se perde menos a língua [...] Há nesta poesia firme, brusca e breve, feita
de «palavras poucas», de «palavras nítidas, velozes», com «a claridade rente
à terra» e «de uma crueldade sedosa», toda uma homenagem eloquente e
pungente, ainda quando ou por isso mesmo que despida de sentimentalidade,
àquela «Nostalgia haurida / no dédalo da memória.» Mas não só. Há também
[...] espaço (compensação? redenção?) para o «verde de excessos», para o
rosto de Antínoo, para a «cal impetuosa» das ilhas gregas, para o «vinho
nomeado», para a «ternura a levedar / na polpa dos meus dedos», para «os
dentes nas espáduas» — «veredas percorridas pelo fogo.» Para a «vontade
desatinada», em suma. Para uma certa forma de desordem e para a música que a
matiza: «É pela música que chego / e vos digo do insubordinado pulsar / de
outra vontade.» [...] É o que faz o fascínio permanente e intenso da escrita
poética de Eduardo Pitta [...] o domínio, a um tempo ilusório e firme, de
uma escrita luminosa, tensa e alada, sobre um caos obscuro, violento e rico.
Os «de fora», os que têm o hábito de ler só as aparências e auscultam a
subversão onde ela não tem que estar, não sabem que um grande domínio
externo apenas tenta frequentemente estrangular uma grande desordem interna.
Eugénio Lisboa, rev. Colóquio-Letras, n.º 83, Lisboa, 1985.
Cf. O Objecto Celebrado, Coimbra: AUC,
1999.
A Linguagem da Desordem é, efectivamente, um percurso através de vários
corpos entre «o caos e a memória». Uma espécie de violência surda se
desprende destes poemas, onde palavras como espelhos, dentes, crime, têm uma
importância fulcral [...] Eduardo Pitta aposta na «viagem». Viagem não
superficial, ao interior dos seres que deambulam, inconscientes ainda dos
valores que os amarram à realidade circundante: «É pela música que chego / e
vos digo do insubordinado pulsar / de outra vontade.» [...] Todo o
investimento está neste jogo, por vezes duro, cruel, difícil.
Isabel de Sá, Jornal de Notícias, Porto, 1984.
E, já que falamos de crítica, permitam-me que refira dois livros de que
gostei [...] A Linguagem da Desordem, de Eduardo Pitta, e
Recados de Luís
Filipe de Castro Mendes.
Eduardo Prado Coelho, Jornal de Letras, Lisboa, 1984.
Embora de vez em quando alguns possam tropeçar nas «irregularidades» de
certos versos destes Olhos Calcinados, as reservas cedem perante poemas em
que o estado do mundo se volve uma espécie de emoção impessoal e purificada,
de onde uma nova lucidez parece libertar-se.
Miguel Serras Pereira, Jornal de Letras, Lisboa, 1984.
Pitta, cicerone insinuante, leva-nos à Grécia dos corpos solares, faz-nos
defrontar vinhas, pedras e mar, carrega-nos de luzes, brilhos, revérberos de
cristais. Mas viaja também à cultura inglesa, de que há traços profundos nos
seus pequenos quadros emocionados [...] Quase metade dos trinta poemas do
livro cresce, no máximo, até à estrofe de quatro versos — suprema ironia de
um poeta desconfiado das retóricas em curso. A Linguagem da Desordem é uma
aposta a fazer.
Fernando Assis Pacheco, coluna Bookcionário, O Jornal, Lisboa,
1984.
Quem conhece o teatro sabe o que é a voz branca: os poemas do Autor são
ditos por essa voz [...] O silêncio, a mudez, a memória (os «arquétipos»
dela, num verso menos feliz, explicativo), a ausência, a distância, o
exílio, a condição do apátrida, são os dados psicossomáticos dessa brancura
[...] O título do livro apresenta-se exacto, sobretudo quanto ao seu verbo:
a progressão da angústia articula-se no essencial e envolve, concretamente,
o verso e o seu leitor, dificilmente insensível a essa démarche.
Jorge Listopad, rev. Colóquio-Letras, n.º 62, Lisboa, 1981.
Por isso mesmo oscila a balança idiomática do autor de
Um Cão de Angústia
Progride, entre o que quase não faz sentido lógico e o que está cheio de
sentido lógico [...] Livro realmente belo, angustiosamente belo, ao livro de
Eduardo Pitta vêmo-lo na perspectiva em que vimos os livros de Rui Knopfli e
na mais larga perspectiva em que vimos os próprios livros de Cinatti, de
Tomaz Kim, de Sophia Andresen [...] e, porque não, os próprios livros de
Jorge de Sena. O drama do apatridatismo destes poetas nados, formados e
amadurecidos ao sol de outras pátrias, de outras culturas ou de outras
línguas [...] está bem presente na angústia que morde como um cão as
entranhas do poeta.
João Gaspar Simões, Diário de Notícias, Lisboa, 1980.
Cf. Crítica II, Tomo III, Lisboa:
INCM, 1999.
Eduardo Pitta não é um romântico, é um poeta que recusa toda a forma de
evasão.
Maria Estela Guedes, Diário Popular, Lisboa, 1980.
Ora Eduardo Pitta é já, lá (e cá, onde temos a sua língua e a mesma Poesia)
uma voz importante e tanto mais quando não quer dizer demais.
Pedro Tamen, Expresso, Lisboa, 1975.
Deixando para trás as inocências enganadoras e revelando-nos uma linguagem
de inspiração temporal, o poeta dá-nos notícia de dias em ruína [...] dá-nos
já num livro de estreia uma lição de rigor [...] para um recorte de leitura
dramática, sem cair apenas num jogo fácil de palavras.
Lourenço de Carvalho, rev. Tempo, Lourenço Marques, 1974.
O silêncio da palavra, o gozo de a manobrar como elemento perturbador [...]
Mas Sílaba a Sílaba é algo mais que a redundância de certos abismos fantasmáticos ou angústias precoces que julgamos apenas próprias de um
início. E aqui poderemos falar de intenções exactas.
António Daum, Notícias, Lourenço Marques, 1974.
Eduardo Pitta, autor dos mais jovens de entre os seus pares, é todavia já
todo um poeta reclinado no âmago fascinante da palavra comunicada como
exercício vital: «Custa-nos o discurso indirecto / no devir das palavras
deficitárias [...] em que agora nos foi tão exíguo / um tempo de mapas a
arder / no tableau-noir de um qualquer continente / em chamas?» [...]
Luminosa e cruel, plena de subtilezas linguísticas, bela e corrosiva,
cianídrica, devagarosa até à vertigem, veloz até ao êxtase, sólida e
solitariamente, ela (a Poesia moçambicana) vai-se escrevendo, desenrolando o
seu prumo, individualizando-se no cruzamento dos seus diversos aspectos e
rumos.
David Mestre, A Província de Angola, Luanda, 1973.
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