| ♠ A vida é uma ferida? O coração lateja? O sangue é uma parede cega? E se tudo, de repente? ♠ Pouco tenho para alinhavar. Dizer-te que estou longe não apaga esta ausência que, inelutavelmente, nos distanciou. Cercam-nos muros de silêncio opresso. A própria hera não ousa na despudorada nudez branca de paredes que interditam a fantasia ao forasteiro voraz. O gesto tolhido, o pretexto adiado a memória a estiolar. ♠ Foi então que te vi inteiriçado em facas. Os teus olhos abriam dois buracos na manhã. E de aí um medo antigo de tropeçar na primitiva e inominável insolência do teu abandono. ♠ Agora que o sorriso envidraçado das quizumbas nos envolve, os dias a enrolarem-se-nos aos pés. Somos daqueles a quem o exílio doeu como dói uma noite de vidro coices e violinos. ♠ Temos um tempo breve para amar e todos os dias, à mesma hora, é o deflagrar dos corpos à distância. ♠ A manhã toda topázio, sensação urbana de tendões, poros e carne. Um grito gritado ao contrário, diluído em chama, salgado. A manhã era a labareda do teu corpo. ♠ Perseguem-me fantasmas de outros tempos. Árvores despidas que o horizonte plúmbeo ajudou a recortar com uma nitidez de pesadelo. E tudo agora me diz dos tempos em que menino me deleitava no estalar de folhas em carne viva. ♠ Um cão de angústia progride na cidadela sitiada enquanto te demoras no sorvo no arquejo largo no topo da saliva enquanto te entreabro as pernas altas enquanto te humedeço o musgo tenro para te ferir com a boca cheia de vidro moído. ♠ Adivinhamos inquietos os olhos e o poema dos dois corpos. A nossa vida tem sido um passar sem pedir licença. Um dia e outro dia depois, como quem adestra relâmpagos. ♠ É pela música que chego e vos digo do insubordinado pulsar de outra vontade. ♠ Acolhia-se aos destroços da velha casa, onde não encontrou nenhuma das antigas pegadas, entre si confundidas na sombra da pedra, nos reflexos do lago, no lajedo da vigília. A nenhum deles encontraria — perdidos entre Cartago e a Palestina distantes do absinto, dos dias de fox hunting, das leituras de algum árcade pedante e apostólico. Estava só. Era no tempo da canalha. Para trás ficavam as capelas imperfeitas e a tranquila majestade dos olmos. Amara-os aos dois no intervalo um do outro, na iminência sempre de um naufrágio redentor. E agora tinha as mãos vazias. ♠ Assim nos coube a pior aprendizagem na cidade onde tudo escasseava. ♠ Os meus amigos andam perdidos um pouco por toda a parte. De Lausanne ao Rio é o vasto mundo dos desencontros, os mesmos que de Naxos a Londres e de Manhattan ao Cabo animam exílios vários. Andam em diáspora os meus amigos. Une-os, porventura, a mesma nostalgia. Feridas antigas hipotecadas ao futuro. ♠ Aquela mulher não excessivamente velha mas antiga o bastante, cheia ainda de griserie, beberricava, nos intervalos de ler o Sun o seu tea. Esquiva a memória do tempo em que pudera ter sido a rapariga da página 3. Deixara em Edinburgh três irmãs, solteironas todas, e todas, como ela, enfermeiras no front norte-africano, sob Montgomery. Retornava a York, aigrette na capeline e um fundado desprezo pelo nosso Observer. ♠ Nenhum de nós passeia impune pelos retratos: fazem-nos doer os recessos da memória. Deles saltam, por vezes, sustos, primeiras noites, secreta loucura, lábios que foram. Interditam-nos sempre. Trepam-nos pelo torpor mais desprevenido, subsistem. A sua perenidade é volátil e cheia de venenosos ardis. Um sopro no acetato. Distintos, os seus contornos não são nunca os que supomos. ♠ Inapelavelmente próximo descubro-lhe no linho os olhos calcinados. Nenhuma água para tanta cinza. ♠ Vejo-os chegar à velocidade da erva inquietos mais que desolados. Vêm mudos, sujos muitas vezes, periféricos a qualquer melancolia. O campo, a cidade e mesmo as gentes lhes são estrangeiras. ♠ Poucos nos embaraçam já mas uns quantos cintilam na névoa da beira-rio, o basalto a quebrar-lhes os quadris. ♠ Transportam-se com a lentidão de felinos. Na ganga coçada dissimulam pouco, e mal, o lume das coxas. Descem à tribo amotinada que os surpreende tesudos. ♠ A história deles pode ter sido, por vontade alheia, a simulação excessiva e luminosa de outra culpa maior. Ainda que Inês fosse um chavalo Pedro não andaria ali à toa e a legenda dos algozes trucidados quadra de viés numa corte predadora. Importa pouco a conexão estrangeira, as dezassete léguas de um cortejo siderante como aqueloutro que à luz de seiscentas arrobas de cera para sempre mediatizou D. João Afonso Telo, miminho da cantareira de el-rei. A boca à mercê de novas dominações. ♠ Temos que baste: a pátria à janela e a vontade na cama. ♠ Nunca me tinhas dito: um quarto assim — um quarto cheio de nuvens, tapetes persas, apetites, laliques. O tecto muito verde, a cama muito alta, o espelho muito fundo. Foder-te tudo: a paisagem, o buraco, a esplêndida tesão. ♠ Ardias devagar. Cercaram-te então de abetos por todos os lados. ♠ Houvera ali um rosto muito belo, mal disfarçado na teia geométrica de uma finíssima máscara. Sulcos de um antigo ardor. Tranquilo e arbitrário desapego. A luz baixou tanto. Aquele rosto é um mapa: um mapa crivado de cidades saqueadas. ♠ Está um rapaz a arder em cima do muro, as mãos apaziguadas. Arde indiferente à neve que o encharca. Outros foram capazes de lhe sabotar o corpo, archote glaciar. Nunca ninguém apagou esse lume. ♠ Esse mundo acabou, sobrevive-lhe o eco de algumas vozes. O homem que erra de cidade para cidade conhece a voracidade dos espelhos o brilho ácido da cal o reiterado equívoco das marés. E sabe, soube sempre que a casa já lá não está. Nem a casa nem a memória que quiseram que tivesse. Varrido por um sopro insaturável o olhar vacila, acossado entre ruínas e a traficada solidão. ♠ Eu vi o tédio atravessar o tempo atribulado da infância e espelhar-se naquele rosto ainda de menino. A cicuta, o medo, tanto desamor submerso na água de olhar. Não tem memória. É de outros a vontade, o apelo, a boca acesa ao interdito. Vertigem alguma o perturba. Mãos rudes fixam-lhe o perímetro da pele, secreto desígnio. Imobiliza-se lentamente na claridade líquida da cidade e fosforesce em contraluz. ♠ Hesita bastante. O inferno é uma disciplina como qualquer outra. Dias de vinho e rosas pagos a peso de flagelo. O arrebatado comércio dos sentidos ? Na cidade aberta a dementada luz. ♠ Como se crias de cadela lamber da matilha o adolescente desenho de seus corpos assassinos. Até que um grito, um grito irretorquível. ♠ Antes de nós outros tentaram. Muitos não sabem que viagem alguma se repetirá. Toda a demanda é vã. Aquele muro não está ali por acidente. Sequer a gosto de qualquer feitor com inclinações pré-rafaelitas. A manhã tinha ficado parecida com um pedaço de vidro e era nítida a evidência de desastre. ♠ As coisas são como são. Sempre haverá uma mão senhora de exemplar desprendimento, atenta ao sufoco e à desolação da alma. Assim foi, por socalcos de tabaco, o enredo dos caminhos, ardente magia. Pouco importa saber que toda a paisagem mente. ♠ Ainda se lembrava dos seus tempos de rapaz. Quando era tudo de perfil. Nem podia ser de outro modo: de perfil e em diorite como nos retratos do Império Antigo. Muitos iriam acolher depois os ritos do primitivo estigma. Nos parques, na penumbra dos relvados, ficou dessa queimadura uma legenda. Alguns resistem. Paralisa-os a vertigem de uma estreita afeição. No limite do conhecimento, a tremer de alegria, encontram aquilo que tinha sido esquecido. A cabeça entre as pernas nem sempre se distingue de um sussurro de lâminas. A música de tal desígnio percute nas sílabas todas do inominado canto. Às vezes por um punhado de lágrimas, equívoco maior. É claro que a iniquidade continua impune. ♠ Negros e jarros não voltam a ser como dantes. De Coney Island ao Whitney a insurreição teve o teu nome. Por corpos e caules olhavas com uma mesma e violenta candura as aráceas e os deserdados do downtown, putas e princesas, amigos sem o premeditado cálculo das prebendas. Houve quem começasse a morrer muito depressa. ♠ Hesitas quanto à natureza do travo na língua, a boca sempre vulnerável ao bitterness do chilled pineapple-moscato zabaglione, ou só o frio a arder de Union Square para Central Park West. Até que os elefantes olham para ti com um garbo irreprimível. (Nenhum deles sabe que isso acontece para que se repita uma cena.) Álvaro de Castro, patrono de outra prodigiosa manada, também não sabia. Mas foi lá que tudo começou, entre torcidos manuelinos e calções de caqui com ravina e mar ao fundo. Trinta anos de intervalo cabem inteiros neste confronto. Desvias o olhar e corres para o clarão do gelo e o ziguezague dos batedores. A tarde cai do outro lado mundo. Tu ficas ali, blindado em cashmere. ♠ O doutor Cukrowicz não queria acreditar na sinuosa réplica da senhora Venable, que misturava príncipes da Renascença e merceeiros enriquecidos para explicar a diferença do filho. Sebastian não teve tempo. Outros, como ele, descobriram cedo que a luta dos negros freedom fighters era igual à sua, e trocaram as voltas às mamãs. Eles sempre souberam que a rua é um campo de batalha, na Bowery como no Restelo. A senhora Venable é que nunca percebeu. Não gostava de caça e associou sempre febre a quarteirões pouco recomendáveis. ♠ |