Eduardo Pitta

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Antologia pessoal, ordenada por ordem cronológica  —  excepto o poema de abertura, servindo de ars poetica  —, sem indexação aos livros de origem.



   
                     ♠  

A vida é uma ferida?
O coração lateja?
O sangue é uma parede cega?
E se tudo, de repente?

♠  

Pouco tenho para alinhavar.
Dizer-te que estou longe
não apaga esta ausência que,
inelutavelmente,
nos distanciou.

Cercam-nos muros de silêncio
opresso.
A própria hera não ousa
na despudorada nudez branca
de paredes que interditam

a fantasia ao forasteiro
voraz.
O gesto tolhido,
o pretexto adiado
a memória a estiolar.

♠  

Foi então que te vi inteiriçado
em facas.

Os teus olhos abriam dois
buracos na manhã.
E de aí um medo antigo de
tropeçar

na primitiva e inominável insolência
do teu abandono.

 

Agora que o sorriso envidraçado das quizumbas
nos envolve, os dias
a enrolarem-se-nos aos pés.

Somos daqueles a quem o exílio doeu
como dói uma noite de vidro
coices e violinos.

 

Temos um tempo breve para amar
e todos os dias, à mesma hora,
é o deflagrar dos corpos à distância.

 

A manhã toda topázio,
sensação urbana de tendões, poros
e carne.
Um grito gritado ao contrário,
diluído em chama, salgado.
A manhã era a labareda do teu corpo.

 

Perseguem-me fantasmas
de outros tempos.

Árvores despidas
que o horizonte plúmbeo
ajudou a recortar
com uma nitidez
de pesadelo.

E tudo agora me diz
dos tempos em que
menino
me deleitava no estalar
de folhas em carne viva.

 

Um cão de angústia progride
na cidadela sitiada

enquanto te demoras
no sorvo
no arquejo largo
no topo da saliva

enquanto te entreabro
as pernas altas
enquanto te humedeço
o musgo tenro

para te ferir com a boca
cheia de vidro moído.

  

Adivinhamos inquietos os olhos
e o poema dos dois corpos.

A nossa vida tem sido um passar
sem pedir licença.

Um dia e outro dia depois,
como quem adestra relâmpagos.

  

É pela música que chego
e vos digo do insubordinado pulsar
de outra vontade.

 

Acolhia-se aos destroços
da velha casa, onde não encontrou
nenhuma das antigas pegadas,
entre si confundidas na sombra
da pedra, nos reflexos do lago, no
lajedo da vigília.

A nenhum deles encontraria —
perdidos entre Cartago e a Palestina
distantes do absinto, dos dias de fox
hunting, das leituras de algum árcade
pedante e apostólico. Estava só. Era no tempo
da canalha.

Para trás ficavam as capelas imperfeitas
e a tranquila majestade dos olmos.
Amara-os aos dois no intervalo
um do outro, na iminência sempre de um naufrágio
redentor.
E agora tinha as mãos vazias.

 

Assim nos coube a pior aprendizagem
na cidade onde tudo escasseava.

 

Os meus amigos andam perdidos
um pouco por toda a parte.
De Lausanne ao Rio é o vasto mundo
dos desencontros, os mesmos que
de Naxos a Londres e de Manhattan ao Cabo
animam exílios vários.

Andam em diáspora os meus amigos.
Une-os, porventura, a mesma nostalgia.

Feridas antigas hipotecadas
ao futuro.

 

Aquela mulher não excessivamente velha
mas antiga o bastante, cheia ainda
de griserie, beberricava, nos intervalos de ler o Sun
o seu tea. Esquiva a memória do tempo
em que pudera ter sido a rapariga da página 3.

Deixara em Edinburgh três irmãs,
solteironas todas, e todas, como ela, enfermeiras
no front norte-africano, sob Montgomery.
Retornava a York, aigrette na capeline
e um fundado desprezo pelo nosso Observer.

  

Nenhum de nós passeia impune
pelos retratos: fazem-nos doer
os recessos da memória.

Deles saltam, por vezes, sustos,
primeiras noites, secreta
loucura, lábios que foram.

Interditam-nos sempre.
Trepam-nos pelo torpor
mais desprevenido, subsistem.

A sua perenidade é volátil
e cheia de venenosos ardis.
Um sopro no acetato.

Distintos, os seus contornos
não são nunca
os que supomos.

 

Inapelavelmente próximo
descubro-lhe no linho
os olhos calcinados.

Nenhuma água
para tanta cinza.

Vejo-os chegar à velocidade
da erva
inquietos mais que desolados.

Vêm mudos, sujos
muitas vezes, periféricos
a qualquer melancolia.

O campo, a cidade
e mesmo as gentes
lhes são estrangeiras.

 

Poucos nos embaraçam já
mas uns quantos cintilam na névoa
da beira-rio,
o basalto a quebrar-lhes
os quadris.

 

Transportam-se com a lentidão
de felinos.

Na ganga coçada dissimulam
pouco, e mal, o lume
das coxas.

Descem à tribo amotinada
que os surpreende
tesudos.

 

A história deles pode ter sido,
por vontade alheia,
a simulação excessiva
e luminosa
de outra culpa maior.
Ainda que Inês fosse um chavalo

Pedro não andaria ali à toa
e a legenda dos algozes trucidados quadra
de viés numa corte predadora.
Importa pouco a conexão
estrangeira, as dezassete léguas
de um cortejo

siderante como aqueloutro que à luz
de seiscentas arrobas de cera
para sempre mediatizou
D. João Afonso Telo, miminho
da cantareira de el-rei.
A boca à mercê de novas dominações.

 

Temos que baste: a pátria à janela
e a vontade na cama.

  

Nunca me tinhas dito: um quarto assim
— um quarto cheio de nuvens, tapetes
persas, apetites, laliques.

O tecto muito verde, a cama muito
alta, o espelho muito fundo.

Foder-te tudo: a paisagem,
o buraco, a esplêndida tesão.

 

Ardias devagar.

Cercaram-te então de abetos
por todos os lados.

  

Houvera ali um rosto
muito belo, mal disfarçado
na teia geométrica
de uma finíssima máscara.

Sulcos de um antigo
ardor.
Tranquilo e arbitrário
desapego.

A luz baixou tanto.
Aquele rosto é
um mapa: um mapa
crivado de cidades saqueadas.

  

Está um rapaz a arder
em cima do muro,
as mãos apaziguadas.
Arde indiferente à neve que o encharca.

Outros foram capazes
de lhe sabotar o corpo,
archote glaciar.
Nunca ninguém apagou esse lume.

 

Esse mundo acabou,
sobrevive-lhe o eco de
algumas vozes.
O homem que erra de cidade
para cidade
conhece a voracidade dos espelhos
o brilho ácido da cal
o reiterado equívoco das marés.

E sabe, soube sempre
que a casa já lá não está.
Nem a casa nem a memória
que quiseram que tivesse.

Varrido por um sopro insaturável
o olhar vacila, acossado
entre ruínas
e a traficada solidão.

 

Eu vi o tédio atravessar o tempo
atribulado da infância
e espelhar-se naquele rosto

ainda de menino. A cicuta,
o medo, tanto desamor
submerso na água de olhar.

Não tem memória. É de outros
a vontade, o apelo, a boca
acesa ao interdito. Vertigem

alguma o perturba. Mãos rudes
fixam-lhe o perímetro da pele,
secreto desígnio.

Imobiliza-se lentamente na claridade
líquida da cidade
e fosforesce em contraluz.

 

Hesita bastante. O inferno
é uma disciplina como qualquer outra.
Dias de vinho e rosas
pagos a peso de flagelo.
O arrebatado comércio dos sentidos ?
Na cidade aberta a dementada luz.

 

Como se crias de cadela
lamber da matilha o adolescente
desenho de seus corpos
assassinos.
Até que um grito, um grito
irretorquível.

  

Antes de nós outros tentaram.
Muitos não sabem que viagem alguma
se repetirá. Toda a demanda é vã.
Aquele muro não está ali

por acidente. Sequer a gosto de qualquer
feitor com inclinações pré-rafaelitas.
A manhã tinha ficado parecida com um pedaço
de vidro e era nítida a evidência de desastre.

  

As coisas são como são.
Sempre haverá uma mão senhora de exemplar
desprendimento, atenta ao sufoco
e à desolação da alma.

Assim foi, por socalcos de tabaco,
o enredo dos caminhos, ardente magia.
Pouco importa saber
que toda a paisagem mente.

  

Ainda se lembrava dos seus tempos de rapaz.
Quando era tudo de perfil. Nem podia ser
de outro modo: de perfil e em diorite
como nos retratos do Império Antigo. Muitos

iriam acolher depois os ritos do primitivo
estigma. Nos parques, na penumbra dos relvados,
ficou dessa queimadura uma legenda. Alguns
resistem. Paralisa-os a vertigem de uma estreita

afeição. No limite do conhecimento, a tremer
de alegria, encontram aquilo que
tinha sido esquecido. A cabeça entre as pernas
nem sempre se distingue de um sussurro

de lâminas. A música de tal desígnio percute
nas sílabas todas do inominado canto. Às vezes
por um punhado de lágrimas, equívoco maior.
É claro que a iniquidade continua impune.

 

Negros e jarros não voltam a ser como dantes.
De Coney Island ao Whitney a insurreição
teve o teu nome. Por corpos e caules olhavas
com uma mesma e violenta candura

as aráceas e os deserdados do downtown,
putas e princesas, amigos sem o premeditado
cálculo das prebendas.
Houve quem começasse a morrer muito depressa.

 

Hesitas quanto à natureza do travo na língua,
a boca sempre vulnerável ao bitterness
do chilled pineapple-moscato zabaglione,
ou só o frio a arder de Union Square para Central Park West.

Até que os elefantes olham para ti
com um garbo irreprimível.
(Nenhum deles sabe que isso acontece
para que se repita uma cena.)

Álvaro de Castro, patrono de outra prodigiosa
manada,
também não sabia.
Mas foi lá que tudo começou,

entre torcidos manuelinos e calções de caqui
com ravina e mar ao fundo.
Trinta anos de intervalo cabem inteiros
neste confronto.

Desvias o olhar e corres para o clarão do gelo
e o ziguezague dos batedores.
A tarde cai do outro lado mundo.
Tu ficas ali, blindado em cashmere.

♠  

O doutor Cukrowicz não queria acreditar na sinuosa
réplica da senhora Venable,
que misturava príncipes da Renascença e merceeiros
enriquecidos
para explicar a diferença do filho.

Sebastian não teve tempo. Outros, como ele,
descobriram cedo que a luta dos negros freedom fighters
era igual à sua,
e trocaram as voltas às mamãs.
Eles sempre souberam que a rua é um campo de batalha,

na Bowery como no Restelo.
A senhora Venable é que nunca percebeu.
Não gostava de caça
e associou sempre febre
a quarteirões pouco recomendáveis.